Grito Número Noventa e Três:

quinta-feira, 28 de abril de 2011

SEGUNDA-FEIRA

Passa logo segunda-feira!
Passa de uma vez!
Antes que eu jogue este calendário fora.
Se resolver persistir, fatídica segunda,
Avisa-me, para que eu vá embora.

Grito Número Noventa e Dois:

segunda-feira, 25 de abril de 2011

FRUSTRAÇÃO

E se aproximando o momento do rugido de vitória lembrei-me de meu currículo: a primeira e única revolução efetiva que participei foi quando concluí uma mijada inteira sem pingar fora do vaso.
Ainda assim resolvi brindar à tentativa que o momento me ofecerera, com canções de liberdade, meio às flores despedaçadas e pinos de granada, mas minha garganta estava repleta de rouquidão.
E ao colher os cravos não-pisados do chão, os ergui apontando para os céus, com lágrimas nos olhos e mudo, para celebrar o fim a opressão crônica.
Então fui queimado com napalm junto com todos que gostavam de cantigas sobre flores.

Grito Número Noventa e Um:

sábado, 16 de abril de 2011

O ENDORCISTA



"Agora aceita a cruz ou a doença, bastardo!"- disse o líder.
Mal sabia que a doença era ele e tudo o que ele representa.

Grito Número Noventa:

sexta-feira, 15 de abril de 2011

TODO FUNERAL SERÁ MINHA FESTA

Sabe que dos funerais podemos tirar muito proveito?
Além do pranto escandaloso e das frases feitas, digo. É o renascer dos que ficam meio aos crisântemos, messias de bronze e orações decoradas.
De enxergar onde se erra todos os dias de vida, de questionar seus prováveis epitáfios. É a hora de enterrar o que se foi e seguir.
Todos os dias alguns pássaros morrem e todos os dias o resto deles voa.
Dance e faça as orgias sobre o féretro que somente tenta lhe ferir.
Se entregue ao funeral que desterra a plenitude de seus dias.
E nunca diga amém a essa angústia melancólica.
Engole o choro, chame o barman e peça pra descer outra dose de bebida forte. Beba e continue caminhando inabalável, qual fortaleza medieval.
E pise nessas malditas flores de plástico de jazigos nada convidativos.
Amém e já foi tarde.

Grito Número Oitenta e Nove:

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SOBRE UM PAR DE ÓCULOS MÁGICOS QUE TRAZ EPIFANIAS (TRISTES)



Era o intervalo das aulas matutinas, algum horário entre nove e dez da manhã. Em um círculo de amigos e colegas bebíamos cafés e capuccinos.
Enquanto alguns conversavam de assuntos que não me interessavam tirei meus óculos e entreguei para um amigo os colocar, só para ver como ficavam, como em uma típica brincadeira pueril.
Disse ele com a lente frente aos seus olhos:
-É como enxergar se eu estivesse dentro de um aquário!
E no final do dia, quando tirei meus óculos para descansar por alguns instantes antes das aulas noturnas, não senti diferença de estar com ou sem minhas lentes, além de um ligeiro embaço.
Talvez aquelas lentes mostrem o mundo como eu vejo, e de tão estafado não noto que por elas transparece a gaiola de vidro que vivo, sem perceber.

Grito Número Oitenta e Oito:

domingo, 10 de abril de 2011

SOBRE ENGANOS, CONVICÇÕES E CAMINHOS ADVERSOS

Eu gosto de tentar me enganar. Tento ser verdadeiro nas coisas que faço, mas eu vivo de tentar me ludibriar a todo momento.
Eu estou trilhando o caminho do terno e da gravata, com muito boas intenções, mas meu coração pede que eu vista uma camiseta escrito "SUBVERTA-SE!".
Eu penteio o cabelo para trás, tipo executivo bem sucedido, mas eu sei que ele quer estar sujo, fedido e livre.

"Posso ser tolo, mas meu coração bate ainda a mesma canção."

Eu vou seguir nesse caminho que pode tentar fazer com que eu me engane, mas vou subverter tudo que pairar ao alcance das minhas curtas mãos, vou ler os
códigos de ponta cabeça e discordar de todas as leis burras e que tentam fazer com que as pessoas deixem de viver suas vidas.

Vou mijar nos grilhões.
Vou me enrolar ao amor da bandeira preta. Eu tento me enganar que deixei de crer nela, mas ela estampa meus sonhos.
Um mundo sem fronteiras e grades, humanidade unida em prol da liberdade, igualdade e justiça.
Sem barões, sem matança, sem líderes, sem classes, sem guerra e sem igrejas.

Da paixão da juventude, eu tive de adaptá-la das diatribes e sprays na parede pelo verbo manso e pela arte. Tem me trazido bons resultados, tenho arranjado
simpatizantes, que um dia podem se tornar seguidores, que um dia podem semear e espalhar boas convicções.
Eu não posso deixar que eu tenha medo que me julguem. Não posso transmitir medo à essas mentes falidas e fracassadas. Eu devo mostrar a maldição futura
de se pensar como pensam.
Eu quero cagar na esquerda, mijar na direita e mandar o centro à merda.
Eu finjo me enganar, eu finjo me conformar. Finjo comer pelas bordas.
Talvez eu apenas tenha tentado me enganar e nunca tenha conseguido.
Talvez eu esteja preso em mim mesmo de tanto tentar fingir.
Mas acho que finjo estar preso só para clamar por liberdade.

Grito Número Oitenta e Sete:

terça-feira, 5 de abril de 2011

NICTOFOBIA

Certas coisas nunca mudam, isso já sabemos. Mas o que é novidade para muitos é que certas coisas não mudam nada.
Nos esforçamos tanto para esconder quem somos por debaixo das tatuagens sociais que maquilam nossos Quasímodos de Notre-Dame, mas no escuro, somos quem somos, feras indomáveis, bisões feridos e observadores cegos de nossas imagens no espelho.
O escuro aqui narrado é um espaço sideral apenas seu, o lugar de aconchego onde niguém pode lhe ferir, ninguém pode lhe julgar. Entenda que nesta escuridão protegida, quem lhe parecer ter a certeza de poder acompanhar, jamais abalará sua proteção.
Este escuro é bom.
É onde os fracos se escondem e onde os fortes mostram que são fracos também.
O escuro tem mães mortas e pais bebâdos, tem luxúria e castidade, tem roupas íntimas sujas e seringas usadas do lado de imagens de santas católicas rachadas.
Ninguém tem o rosto tão confuso quanto este se faz no escuro. O escuro pode lhe revelar tudo, mas na maioria das vezes, nem mesmo nós nos enxergamos no escuro. Ficamos de joelhos e imaginamos dolorosamente quem somos na realidade.
Não tenha medo de acender as luzes do seus escuros, não tenha medo do que possa lhe assombrar.
Porém cuidado, chamas iluminam tanto quanto queimam, portanto tenha talento para iluminar. Não obstante encontramos peças de um quebra-cabeças que jamais saberemos montar.
São pedaços do que fomos e do que seremos.
Somos nós.
E boa-sorte.

Grito Número Oitenta e Seis:

domingo, 3 de abril de 2011

FAÇA ALGUMA COISA, PORRA!

Não precisa queimar tudo!
Não precisa queimar todos!
Basta você se apegar!
Não precisa mudar tudo!
Não precisa ir contra todos!
Basta apenas acreditar...

Nas estrelas que brilham como fogo de revolta
E cometas que são como tiros de polícia a sua volta
Crescer sem esperança é viver em vão
Desnecessárias são as armas
Quando se tem o poder da canção

Qualquer um podia estar frente a mil tanques
E faze-los parar para ouvir a sua voz
E com palavras de brilhantes
Que promovem os sonhos belos de todos nós

Quem sobreviveu mais um dia na cancha do matadouro?
Somos aves presas pelos pés
Somos próximos na fila para retirar o couro
Onde estão nossas palavras de fé

Força onde não mais há
Para abrir o peito
E faze-lo gritar

Mudar
Trocar
Não precisa matar
Não precisa queimar
Melhorar
Aceitar
Que dias bons após a tormenta
Sempre tendem a chegar

Grito Número Oitenta e Cinco:

segunda-feira, 28 de março de 2011

E do alto do Altino Arantes, ecoa uma canção...


"Tem dias que eu digo não
Inverno no meu coração
Meu mundo está em sua mão
Frio e garoa na escuridão
Sem São Paulo
O meu dono é a solidão
Diga sim, que eu digo não"

Inocentes - São Paulo

Grito Número Oitenta e Quatro:

sexta-feira, 25 de março de 2011

NUNCA MAIS INVERNO

Chegou qual sol por detrás de colina mansa, com vagar e vigor.
Os galhos vazios de folhas e repletos de neve cedem lentamente lugar a folhagem verde.
E o gelo no peito se esvai pelo ralo imundo.
Finalmente, chegou o dia em que posso dizer: nunca mais inverno.
E sem bucolismo barato, trato de construir um verdadeiro idílio em pleno subúrbio.
Foram acendidos os estopins e as fagulhas fazem a ânsia pelos fogos de artifício se tornarem o verdadeiro espetáculo da noite.
E a última noite de inverno calada vai embora.
E mesmo os fogos destruindo alguns jardins, a primavera chega violentamente sem clemência.
E agora, junto a aurora, um vento morno me aquece os lábios que subitamente se movem para dizer, quiçá não ilusoriamente, mais uma vez: nunca mais inverno.

Grito Número Oitenta e Três:

domingo, 20 de março de 2011

A Ponte Sobre o Rio Ubá

O céu encontrava a noite
Lusco-fusco teatral
A estrada refletia
A dor mais infernal

Os estilhaços cortaram
O que eu dizia ser eu mesmo
Meu coração de vidro se encheu
Quando eu cruzei a ponte sobre o Rio Ubá

Pressenti o destino podre e miserável
Que sempre soube onde poderia me encontrar
Quando avistei a ponte sobre o Rio Ubá

Quantas almas entenderam meu lamento
Quando meu pobre coração encontrou o cimento
As luzes dos caminhões se puseram a chorar
Quando meu carro encontrou a ponte sobre o Rio ubá

Implorei a minha imaginação
Hesitei em ter vivido em vão
A certeza é o lamento daqueles que se vão
Sempre soube minha hora, sempre soube o meu lugar
Sempre soube que minha alma, pedia para se atirar da ponte sobre o Rio Ubá

As almas choram para ilustrar
Como é assistir o fim de um futuro sem quiçá
Não há mais porvir
Há somente mais um carro, se encolhendo sobre a ponte do Rio Ubá

Infiltrado no caminho das bocas de jacarés
São mil almas na noite que cantam com faróis
Que por pequeno instante pensei se tratarem de dois sóis
Como pude me enganar
Na noite em que fui mais um que desfaleceu na ponte sobre o Rio Ubá

Meu fim foi numa noite
Em que sonhei poder voar
Caí, eu vi, tentei jamais acreditar
Transformações que levam para o lado de lá
Esse foi meu trágico dia
Em que me tornei mais uma alma a chorar
Lágrimas em vão ao relembrar
De mais uma noite maldita e triste sobre o rio Ubá

Toda noite os carros passam para seu destino encontrar
Em um lugar qualquer existe uma curva de medo e morte
Está perto de quem se encontra ao coração do norte,
Norte do Paraná
Numa noite dessas uma gralha azul resolveu grasnar
Para outro homem morto na curva que passa pela ponte sobre o Rio Ubá


Grito Número Oitenta e Dois:

sexta-feira, 18 de março de 2011


Porque se me acorrentassem pela eternidade e eu só pudesse pedir três pequenas coisas para me acompanhar para todo o sempre eu gostaria de um café puro, lápis e papel...


Há milhões de sentimentos em mim, elas fervilham e exercem uma pressão vulcânica.
Precisam sair de qualquer forma.
Como no pugilista que coloca toda sua vida em alguns minutos no ringue.
Como no patinador que dispõe sua vida em saltos mortais.
Como no mendigo que vendeu a vergonha para saciar a fome da noite.
E como eu, um reles qualquer, que quer fazer de uns traços o seu ponto de apoio.
E se para mais alguém servir, fica cada vez melhor.

Grito Número Oitenta e Um:

quinta-feira, 17 de março de 2011

SOBRE EU TENTAR ESCREVER COMO O VELHO BUK...



Estou lendo e me deleitando com "Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea" de Charles Bukowski. Tentei, como um exercício, me valer do seu estílo escatológico, vagabundo, visceral, verdadeiro e cru de lidar com as palavras, bem como trazer uma narrativa não habitual do que estou acostumado a colocar (ou atirar) para fora. Preparei então a inspiração e encarnei o velho e destrutivo Henry Chinaski. O que surgiu foi um conto, que assim batizei:




COBAIA, COMIDA FRANCESA E NUVENS DE METANO

Albert estava fodido. Andava fodido há anos. Não tinha dinheiro, comia sobras dos restaurantes e recolhia baganas de cigarros nas vielas para montar seu cigarro nos guardanapos que roubava das lanchonetes que colocavam mesas nas calçadas. Eis que houve um dia que um sujeito ruivo, com um grande bigode cor de ferrugem se deparou com aquela figura patética e imunda. Alberto fixou seu olhar naquele bigode laranja e não escutou as duas frases que o senhor enferrujado de sardas havia proferido.

-Hey! Você ouviu o que eu disse?
-Desculpe, não estava prestando atenção.
-Me chamo Larry. Quer ganhar uma grana?
-De quanto estamos falando? - disse Albert jogando, pois aceitaria até um pedaço de pão com mais idade que ele.
-Que tal quinhentos dólares semana?
-Quem eu tenho que matar?
-Lhe explico, quer tomar um café, ali na esquina da Rua Denver?
-Eu aceito uma cerveja.

Caminharam uma quadra e meia até a bendita esquina e se sentaram em uma das mesas do lado de fora da loja. O garçom reconheceu Albert das afanadas de guardanapos, mas se resignou a atendê-los normalmente.
- Um café preto para mim e uma cerveja para meu amigo, por favor.
- Você prefere Pilsen ou Lager?
- Meu amigo, faz tempo que bebo água de viela, me traga qualquer uma, ou a mais gelada.

Larry riu do semblante de asco do garçom esboçado por meio segundo.
-Vamos direto ao ponto - disse Albert.
-Certo. O negócio é o seguinte. Eu não consigo satisfazer plenamente a minha mulher.
-Beleza, eu como ela tranquilo.
Já fazia um bom tempo que Albert não trepava com ninguém, além de suas mãos. Ele usava a mão esquerda para finjir que era uma mulher desajeitada. Idealizou a mulher em questão e até colocou nome
nessa punheta especial de garota falsa.
-Não é bem assim. Você não vai fazer sexo com ela - disse Larry afrouxando sua gravata.
-Me diga... como é mesmo seu nome?
-Albert. Albert Foster Jr..
-Então, Albert, o negócio é que não consigo peidar.
-Que diabos? Não entendi.
-Já ouviu falar em flatofilia? É o prazer sexual atingido através do inalar de peidos.
-E sua mulher curte cheirar peido?
-Ela cismou que quer isso agora. E faço tudo por ela.
-E você quer que eu peide como? Em uma garrafa?
-Não. Nada disso. Você vai encostar o cu no nariz dela e fazer o serviço de uns bons peidos de quinhentos dólares semanais. Enquanto isso eu faço sexo com ela.
-Cara, que coisa doentia.
-Eu acho estranho também, mas é a minha esposa e faço tudo para vê-la feliz. Além do que, você andou comendo muitas coisas estragadas, deve ter uns traques bem fedorentos.
-O que você acha de uma amostra grátis?

Albert levantou uma de suas pernas e soltou uma bufa cuja sonoridade parecia a de mil helicópteros trombando no ar. O aroma da bomba era indiscritível.

- Que nojo, homem. Acho que vou vomitar minhas roscas do café da manhã.
Dito e feito. O mingau azedo que acompanhava o cheiro de flato no ar casaram-se para formar algum tipo de cheiro letal.
Antes que acontecesse o pior naquele espaço onde outras pessoas se alimentam, foram embora.
Larry deixou uma nota de cinquenta dólares pela cerveja e café que não vieram e pelo fedor de vômito e flato que deixaram ali.

-Minha mulher vai adorar, de bônus vai ganhar esse cu que não deve ser limpo desde o crash de 29.
-Em 29 eu nem tinha nascido, caralho! Não avacalha.
-Estava brincando.

Entraram no carro de Larry. E que carro! Um Bentley R Type Continental preto, com as tiras brancas nos pneus dando um toque de requinte luxuoso.
Andaram por quinze minutos com as janelas abertas, pois Albert fedia um pouco, não da peida mortal que soltara, mas do acúmulo de sujeira e craca dos últimos tempos.
Quando chegaram na mansão, Albert já foi assoviando.

-"Fiiiu"! Que cabana!
-Vamos direto ao que interessa.

Deixaram o Bentley com o manobrista e entraram pela cozinha. Albert já foi pegando a garrafa de whiskey que estava sobre o balcão e tratando de dar uns goles.

-O quarto é por aqui. Vanessa deve estar nos esperando.
Subiram dois lances de escada e entraram na porta que estava a direita.
Quando Albert fitou Vanessa ficou no mesmo momento de pau duro. Estava de camisola vermelha, totalmente transparente. Era uma morena de uns vinte e oito anos, no máximo. Novíssima, ainda mais para
um coroa rico de bigode ruivo.
-Esse que é nosso assoprador.
-Assoprador! Ha-ha! - disse Albert.
Foram curtos e grossos. Vanessa já estava de calcinha abaixada nos joelhos e Larry esfregando seu pinto em Vanessa, tentando encontrar uma ereção.
-Vai Albert! Peida nela! - Larry estava estimulado com a alegria de sua ninfeta.
Albert abaixou sua calça de brim surrada e encostou o rabo no nariz da Vanessa e fez força. Não saía nada. Temeu fazer mais força e cagar na boca da mocinha, mas sentiu que uma rajada de vento
à base de metano estava a caminho. Foi um barulho surreal e o cheiro idem.
Vanessa sentiu aquele cheiro repugnante e gozou na mesma hora. Depois quis encerrar as atividades.
-Meus parabéns. Você é um excelente assoprador - disse Vanessa dando um tapinha em sua costas.
-Aqui estão seus quinhentos dólares e mais cinquenta de gorjeta por ter feito um bom trabalho. Pegue esse extra e vá ao "Le Château de Fontainebleu" na Rua Maple, como lá todos os dias, você não irá se arrepender.
Volte amanhã.

Albert não via aquelas cores verdes havia muito tempo. Contou umas vinte vezes o dinheiro.
Pegou um táxi e foi para o centro. Foi ao barbeiro e pediu por um serviço completo. Tirou toda a barba amarela de sujeira e fumaça de cigarros remendados e deixou o cabelo bem curto.
Depois foi ao alfaiate e comprou seu melhor terno. Estava começando a parecer com Larry, exceto pela cor dos pêlos, que de ruivos não tinha nada - era todo grisalho. Estava estiloso e bem apresentável.
Foi ao "Le Château de Fontainebleu" e pediu metade do cardápio. Comeu canapés com caviar, bebeu champanhe francesa e tomou duas garrafas de vinho, comeu um ensopado de vitela e duas tigelinhas de Crème brûlée.
Sentiu vontade de dar um arroto, mas segurou. Pagou tudo e deixou cinco dólares para o garçom.

Foi até o Hotel do Parque e pediu por um quarto simples.
Tirou seu paletó novíssimo e deitou com a barriga estufada.
-Larry tinha razão, valeu cada centavo, comi como um rei - a última palavra saiu arrotada.
Dormiu como um barão cigano.
Quando acordou com o sol violentando sua paz, já era a hora de realizar seus serviços sujos.

Apanhou um táxi e chegou na mansão nada modesta em aproximados vinte e cinco minutos.
-Fique com o troco.
Como da última vez estava o casal pronto para a ação, Vanessa de camisola, desta vez preta, e Larry estava pelado. Tinha os pelos do pinto ruivos também, mas Albert evitou olhar para aquele cano enferrujado, embora chamassem demasiada atenção.
Nem repararam a barba feita de Albert, nem o terno, estavam esperando os peidos.
Já estavam na posição sexual de costume, com Albert encostando seu cu peludo prestes a expelir uma núvem de sabores sombrios no nariz de uma amável esposa de um senhor ruivo.
Forçou, forçou e nada de gases.
Perdeu até o medo de cagar na cabeça da garota, mas não saía nada.
-Não vai rolar! - disse Albert
-Ah! Então é a comida do "Le Château"! Eu bem que desconfiava, porque depois que eu comecei a comer lá, nunca mais tive gases, e olha que tenho úlcera.
-Pode deixar que eu não como mais lá. - Albert disse como funcionário proativo que estava se tornando.
-Esqueça, eu também não vou comer. Seus serviços não são mais necessários aqui. Pode se retirar, por favor.



Grito Número Oitenta:

sábado, 12 de março de 2011

SOBRE O MAR MORTO E BURACOS NA PISTA

Estava eu a ler um texto sobre o Mar Morto, aquele do Oriente Médio extremamente salgado, e me deparei com um comentário do autor que dizia que lá é o ponto mais baixo da Terra, estima-se algo entre 400 metros abaixo do nível do mar,
ou seja, é uma depressão absoluta.
Passou um minuto e pensei, que os homens que classificaram o mar morto definitivamente não conhecem o coração de um homem triste, afundado milhas abaixo do nível, não só do mar, mas como de qualquer outro lugar (ou não-lugar); isso sim é a depressão mais absoluta.
Mas do mesmo jeito, se cobrirmos tudo com muita terra, tudo se resolve, o nível vai subir, mas acabaremos por vez abrindo um outro buraco em algum outro lugar.
E foi assim que voltei a amar, como o homem que tenta matar o mar morto o cobrindo com terra. Abrindo novas feridas e enterrando meu coração de homem triste com sete palmos de areia por cima.
Mas é provavel, assim como que o Mar Morto não vive, que irei a qualquer tempo despencar nas novas crateras que me encarreguei de escavar.

Grito Número Setenta e Nove:

quarta-feira, 9 de março de 2011

SOBRE A UTOPIA DE MORUS, ATINGIDA ÀS 02:33a.m. DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS EM UMA CADEIRA DOBRÁVEL, SER DESTRUÍDA EM MENOS DE QUATRO SEGUNDOS POR APENAS UM SER HUMANO MISERÁVEL...

Toda uma sociedade se cansa da falta de catarse nos sentimentos reprimidos.
Uma flor de narciso nasce do meio do catarro e gelo. Um mendigo lendo "A Gaia Ciência" enquanto jaz de bruços em um sofá imundo e abandonado que em questão de dias se tornará apenas um pedaço de espuma imperecível.
Imperdoabilidade ao jogar tijolos em financeiras. Rostos cobertos por bandanas vermelhas.
Deusas indianas de braços arrancados, crucifixos descartados e minaretes tombados e ruídos.
Não há mais dinheiro, consequentemente não há mais o que dever.
"O Capital" foi substituído por "O Pequeno Príncipe".
"Desde 1967 trabalhando em pleno inverno, todos esses anos. Que o teto e o piso salarial se fodam. Eu quero sonhar! Durante os invernos da minha vida, eu quis conhaque e jazz, era só isso que eu queria mesmo, caralho. Um brandy Gold Napoleon e um vinil do Sinatra no lugar dessa porra de neve, nunca pedi demais!" - Discursava o jovem senhor de cabelos grisalhos num tom quase religioso.
Crianças em seus doze anos tombam ônibus e incendeiam livros de equações de segundo grau.
Se aquecem nas chamas enquanto entre risadas desfrutam de Salinger e "As Flores do Mal".
Comem doces de marzipã e bebem sucos azulados nas embalagens de revólver.
Uma bandeira negra, apátrida, balançando tímida pelo pouco vento naquela noite gelada anuncia o fim das fronteiras.
O fim de mil eras de grilhões mentais.
O início de tudo que estivera um dia em represália por ser bonito demais para existir.
Então, um jovem metido a escritor, coração de boêmio e barba por fazer, mesmo estando feliz com o resultado e crendo no potencial futuro de reconstrução que estava por vir, estragou e ruiu tudo com apenas dois pequenos atos.
Abriu seus olhos esverdeados que cerrados estavam há alguns minutos e acordou.




Sugestão pós-leitura desse devaneio todo é a música-tema de Clube da Luta, executada pela banda Pixies, que casa perfeitamente com a intenção do texto.

Grito Número Setenta e Oito:

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sobre Ratos e Framboesas....





Por algumas vezes meu coração palpitou como o de um rato, que por migalhas se desbrava pelas ratoeiras de restaurantes imundos. Sem hesitar e sem maiores medos além do batuque de seu pequeno e peludo peito acinzentado, ele encontra as migalhas desprezadas por cozinheiros gordos e suados e faz seu festim com tão pouco.
Os ratos vivem nos esgotos e se alimentam de migalhas desprezadas.

São cegos e satisfeitos.

Cegos como eu e meu coração que palpitou como os deles, por todas as vezes que cruzei com mulheres no meu caminho que pareciam finas como damascos e tâmaras, mas eram, na verdade, migalhas de cozinheiros gordos; vadias sem essência ou conteúdo. Apenas o resto das sobras do desprezo.
Eis que deixei de ser rato quando provei da suavidade de teus lábios de framboesa e aspirei o perfume de café fresco de tua pele.
Abandonei meus tubos de esgoto, estou exposto para sempre, como um camundongo em uma grande avenida repleta de restaurantes refinados.
Tenho que estar sempre a me preocupar com pisões e raticidas, mas quando sorvo do néctar
dos teus seios, posso, assim como os meus velhos amigos roedores, flutuar pelas ratoeiras e se, por ventura ou destino, alguma delas se desarmar contra meu corpo, estarei de barriga cheia e morrerei satisfeito, pleno e feliz, assim como qualquer roedor que abandonou as migalhas em troca de framboesas frescas.



Texto em honra a minha amiga, mulher e musa inspiradora, Michele "Nena" Matsubara.

Grito Número Setenta e Sete:

domingo, 6 de março de 2011

SOBRE SER VERDADEIRO E PAPO DE ELEVADOR

Quem me conhece, ou já realizou em minha companhia
Uma daquelas noitadas fatídicas
De filosofia de botequim,
Sabe que eu sempre falo disso tudo
Para todos.
De quando quando uma pessoa faz as coisas
Pinta, escreve, fode, canta, etc.
Tem o dever de ser verdadeira.

Não adianta vir com sentimento de elevador
Ou emoções primárias.
Porque no elevador a gente é coagido a dizer que o tempo esfriou
E olhar pro chão depois
Esperando o "plim" da sineta, para sair daquela situação de merda
Que é ficar dentro do elevador,
Fingindo estar numa boa,
Quando se está esperando qualquer coisa vir a seguir
Ou rezando para ele despencar por vinte andares.

Grito Número Setenta e Seis:

sexta-feira, 4 de março de 2011

SOBRE ELEFANTES COLORIDOS E ESPATIFADOS
Um elefante, desses acinzentados e gigantescamente atarracados, arranjou mil tinturas com babuínos curandeiros. Pintou a tromba de cor-de-abóbora e o corpo todo de amarelo-queimado. Usou uma tinta branca para seu tórax e laranja em suas patas. Denodado, se jogou de um penhasco, cheio de pose e garbo, para seu vôo de libertação. E ainda assim, nada disso fez dele um canário.

Grito Número Setenta e Cinco:

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Noiva de Vermelho

O rosto se encontrou pálido
Alvo como o vestido tão belo que mal usara
O cheiro da morte elucidava o acontecido
Os olhos sem brilho espalhava o fosco gris por toda cara

O menino-deus ao canto não podia encará-la
As pinturas de bispos beneditinos de vermelho respingadas
Assim como tudo ao redor desta sagrada sala
De vermelho, de impacto e de sangue lavadas

De velhos amores, de certos rumores e do instante das dores
O semblante dos velhos retrados rasgados de anos se fez regressado
E sorria contente depois que todos os outros presentes neste sacramento que até então comemoravam...

(...mas houve um velho motivo para calaram-se para sempre)

O ciúme das flores, o misto de cores com o vermelho dos dissabores
Ilustaram o massacre, de um homem frustrado que segurava um machado
Todo o clero, todos os entes e os noivos malditos que perdiam seus dentes, neste casamento pagaram...

(...até mesmo o meu fruto que se dava por perdido em seu ventre)

Grito Número Setenta e Quatro:

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

MUDANDO A PERSPECTIVA DO ABISMO

Eu percebi que jamais serei o que idealizei em meus sonhos infantis.
Desisti como um pequeno verme cansado de arruinar os corpos das guerras.
Notei com as têmporas fatigadas que jamais poderei salvar as crianças do campo de centeio na beira do penhasco, pois já tomo como fato: meu coração é de criança, daquele tipo bem sensível.
E me arrebendo no chão caindo de penhascos todos os dias.
Talvez passe hoje, com esta nova epifania, a sonhar com apanhadores a minha espera.

Grito Número Setenta e Três:




Quiçá Jamais....

Grito Número Setenta e Dois:




Sorriso amarelado, que nunca se calou.
E por anos nunca notou, que seria o mais sincero que receberia em toda sua existência.

Grito Número Setenta e Um:

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Nadando em mar aberto desacompanhado (ou O Homem Contra Todos Os Sistemas Possíveis)

Terminal de trólebus, centro de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo (talvez já devessem chamar de gigante, colossal ou monstruosa São Paulo).

Desci do ônibus depois de uma pequena jornada de sessenta minutos do sol torrando minha orelha direita por todo o caminho. Era janeiro e o sol castigava minha pele pálida com seus raios violentos.

Faltavam cinco minutos para uma da tarde, horário que havia combinado com minha mulher para nos encontrarmos nas catracas. Fui ao telefone público chamar por ela, pois as mulheres sempre se atrasam para nos encontrar, acho que faz parte do charme delas. Criar uma espectativa flamejante com esperar de uns poucos (ou muitos) minutos.

No caminho para o telefone passei por uma trupe de operários trabalhando no banheiro da estação, senti um dos cheiros mais odiosos que eu tenho memória em meus vinte e três anos.

"Eles deveriam realizar essas obras durante a madrugada, para não incomodar o nariz dos usuários dos trólebus!" pensei comigo mesmo. Mas meus sentidos haviam me traído mais uma vez, pois os meus olhos não enxergaram a verdadeira fonte do mau cheiro: um homem.

Estava do lado de fora da estação encostado em um dos muros, tinha a pele parda e uma longa barba cor de gris, amarelada pelo acúmulo de sujeira.

O homem se encontrava com as calças em trapos, abaixadas até os calcanhares, agachado e de olhos cerrados. Cagava em plena luz do dia, no meio do tumulto do centro da cidade, sem pudor, sem vergonha alguma.

Já não bastasse isso, recortava sua fezes com os dedos em pedaços de uma polegada, lambuzando os dedos e sujando suas unhas com o próprio excremento. A cor dos dejetos era acinzentada, como se o homem houvesse comido jornal para dormir sem fome (o que provavelmente foi seu jantar da noite anterior).

A cena causava um semblante de asco de umas senhoras que se dirigiam a uma igreja evangélica que estava a poucos metros, alguns outros poucos riam do homem, como se aquilo fosse uma grande comédia.

Poucos segundos depois o homem abriu seus olhos e fitou os meus por meio segundo, não havia brilho algum naquele olhar. Pensei comigo no mesmo momento que aquele homem havia conseguido algo (com toda certeza, sem querer) que eu busco até hoje, ele estava, de fato, contra o sistema. Talvez o único punk verdadeiro de todos os tempos.

Em um comunista convicto, atrás de todo discurso de culpabilidade, existiria o nojo de manter qualquer contato.

Em um capitalista selvagem, geraria certamente a ânsia de atirar umas moedas ao pobre, ou pelo menos uma tira de papel para que pudesse limpar seu rabo.

Não importa a posição política, nem a orientação religiosa de quem quer que seja que o olhasse naquele momento. Certamente um olhar naquela cena bestial despertaria algo completamente adverso e antagônico de toda sua crença.

E foi embora, limpando os dedos em sua calça, com a cabeça erguida, como se tivesse certo orgulho de estar contra tudo e todos que o puseram nesta situação.

Grito Número Setenta:

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Parábolas Inaplicáveis


Eu sempre ouvi, desde pequeno, o dogma de oferecer a outra face e sempre achei essa estória bonita.


Mas oferecer outro coração será sempre impossível.


Munch - Madonna (1894-1895)
Noruega - Oslo - Galeria Nacional

Grito Número Sessenta e Nove:

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ascensão e Queda em Três Pequenos Sonetos


I

Mastigo e engulo com calma todo o desdém
Cerro os olhos e com a palma da mão
Sussuro bobagens e digo amém
Mas não peço mais pão

Serradas as mãos e a tampa dos joelhos
Sobrou somente a ironia
E seus olhos vermelhos
De toda ira maldita que sentira

Intolerância, descaso
Militância, acaso
Descobriu então que não havia nada depois do portão dourado

Sentou-se então e jogou solitário
Paciência com seu imaginário baralho
Nunca pode apostar além de migalhas e tostão furado

II

Espalhou-se no ar pela brisa do mar
O que nunca mais iria olhar e sentir
Não havia mais o que procrastinar
Nunca existira tudo aquilo do porvir

Na cova de lobo fez sua desventura
Sem mais crer naquilo que apura
Sobrou mais de seu próprio desdém
Tornaram-se palavras somente

Esquivou-se do ódio e das pratas de Judas
Mas agarrou-se as cordas e fez mil viúvas
Não havia mais motivo a quem ser temente

Fizeram passeatas de velas brancas e mudas
Cânticos por vozes de crianças miúdas
Não o levarão para além do poente

III

O castelo de cartas veio a ruir
Sem monstros que dragam
Sem leão manso que se impõe ao rugir
Sem feridas que pagam

Não sobrou o que imaginara
Apenas as vias de adaga
Sobrou o caminhar que nunca para
Malvindo sois vós que tem a praga

Mudos, surdos e esqueléticos
Mergulhou nas nuvens vagarosamente
Mas eram apenas pensamentos

Nas estrelas dos homens proféticos
Seu firmamento indigesto me propunha a salvação respeitosamente
Mas provou-se que trava-se de terrenos momentos

Grito Número Sessenta e Oito:

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Tudo o que aprendi com um álbum negro.




Estou aqui há anos e muitos me acompanham às maldições. Geração de degenerados de valor.
Parecia estagnado e destruído, mas a força sempre retorna às lâminas empunhadas com vigor.
Não estarei mais parado vivendo outras vidas, a lâmina negra resguarda a paz doente em seu leito, sem aceitar suposta morte.
E da lâmina negra se movem os cancros e heranças malditas que brotam da paz convalescente.
Sempre da luta surge o ânimo sagaz, que busca mais sangue de porco para beber.
Vamos queimar todo o torpe maldito e todos os símbolos que nos fazem mal.
Contudo sem deixar jamais de olhar as estrelas e sonhar por segundos.
Contudo sem deixar passar aos olhos toda vigarice podre que este mundo nos deu.
Contudo sem deixarmos as pequenas crianças de nosso espíritos despencarem do abismo escondido em campos de centeio. Seja o apanhador.
Respire a poesia que o campo de centeio lhe oferece.
Contudo sem perder o orgulho que lhe resta.
Principalmente quando existir vontades súbitas de apagar a luz e ir embora para um lugar qualquer. Pois mesmo com luz apagada, sempre haverá uma tal chama que nunca se esvai.



Grito Número Sessenta e Sete:

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sobre a morte, pura e simplesmente...

Eu sei que ela aparece qual cisne negro de asa aberta sobre os lagos frios do norte.
E entendo que ela é o fim, que trata-se do apertar do interruptor que irá além do
apagar da luz, irá queimá-la para sempre.
E seria, de fato, confortável, pensar que haveria lugar onde sempre toda luz nunca se
apagasse. Com verdes campos, flores brancas, crianças ruivas na beira de lagos observando as circunferências resultante dos pedregulhos por elas lançadas.
Mas isso não existe em meu peito e isso aflige aos que a minha volta escutam meu coração verdadeiro, pueril e nada sutil.

O que sobrara daquele pobre coração trucidado pelos comboios?

O que o homem deixou de rastro, já que a alma não traz nada?

O que pensou a moça no momento em que o cisne negro a envolveu em suas asas e a beijou
de forma tenra e inexorável?

Será que agora habitam algum lugar secreto ou será que a cortina desceu e os atores
deste espetáculo, ora belo, ora grotesco, ora patético, ora simpático, se aposentam?
Será que se exilam num castelo rochoso inacessível?
Pois confortável seria se o fosse, mas é só estalinho da ponta do disco de vinil
anunciando a hora do silêncio e o fim da melodia.

E o cisne voa só pelo horizonte avante...

Hoje uma parte de mim que eu não me importava está morta.
Ainda não me importo, mas me faz pensar no que deixo para este mundo.
Pelo menos uma dúzia de palavras que para alguém baste.


Xeque-mate.

Grito Número Sessenta e Seis:

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sobre as próximas doses desejadas...
Nossa, como eu quero no ano vindouro me embebedar! 
Embebedar de Hemingway, Bukowski e Jostein Gaarder. 
Embebedar de Chaplin, Tarantino e conseguir intercomunicar os dois.
Tão ambíguos e polivalentes.
Quero me embebedar com artigos científico-jurídicos, me embebedar de teoria. 
Mas eu já estou vomitando há anos. 
Porém, sempre insisto em mais uma dose. A dose me nutre em pequenos ciscos, antes de mais um jato de vômito botar tudo pra fora. 
Chegou a hora da ressaca, de sentir os efeitos da última bebedeira. Ficar estático ou invés de extático, e esperar as minhas aspirinas chegarem pelo correio. E quando passar toda zonzura, já estão me esperando mil garrafas na estante para voar.
Para o alto e avante, sempre. 
Mais uma dose, sem gelo, por favor. 

Grito Número Sessenta e Cinco:

terça-feira, 4 de janeiro de 2011


Os Mundos dos Livros

Grito Número Sessenta e Quatro:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

GATO XADREZ


Foi montando peça por peça. Torres nos cantos seguidas pelos cavalos e bispos, tudo conforme descrito na parte de trás do tabuleiro. As peças negras alinhadíssimas, encarando as peças brancas, já meio amareladas pelo tempo. A menina, com olhos tão brilhantes, se sentia em plena idade média, no maior confronto entre reinos de essência oposta. Depois do tabuleiro organizado, com tanto esmero, percebeu. Que além de não saber jogar, não poderia jogar só. A frustação passou segundos depois de alguns passos, quando avistou o balanço de pneu a chamando na figueira. Foi tudo esquecido através de sabor de vento no rosto e o balanço constante sob sombra da árvore. Deixou o reino talhado em madeira sem culpa ou remorso. Sempre será fácil abandonar os peões que te encaram feio, para poder se balançar, desde que seu coração ainda seja de criança. Afinal, o balanço é muito mais legal quando se está só, e se alguém chegar, é só pedir para empurrar.

Grito Número Sessenta e Três:

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um baobá cheio de corvos.

Seus bicos amarelos iluminam o ambiente lúgubre.

Seus grasnados ecoam uma melodia infernal.

Olhos arrancados de corpos estão perdidos meio aos galhos, qual enfeites natalinos.

Abandonados por abutres que deixaram de lado a carniça para tornarem-se urubus-rei.

Mas de rei esse urubu só tem o título.

As flores do dia de finados já estão secas e formam um colorido de tons pastéis tristes e amarelados.

Um crisântemo branco agüenta o sol de dezembro com afinco.

Esbanja vida adornando a morte dos outros.

Arco-íris de arame farpado.

Prato de alumínio levemente amassado e vazio.

Criança cheia de catarro e fome.

Um velho esquálido com camisa vermelha de propaganda de partido político de esquerda pega latas do lixo e engorda seu saco surrado de estopa.

Chuva de verão, molha tudo ao mesmo tempo em que o sol torra a todos.

“Casamento de espanhol” dizem das janelas as velhas que olham matreiras o movimento dos vizinhos e da travessa em que moram.

Escola vazia, rua imunda, vômito da véspera festiva.

Silêncio mortal da manhã.

O presidiário tirou férias da cadeia para bater em sua esposa e cheirar um pouco de pó, só volta dia dois do ano que vem para sua gaiola falha e degenerada.

Um senhor gordo fuma cachimbo em sua varanda observando as folhas secas.

Uma criança rica doa um carrinho sem rodas para uma criança pobre que recebe como se fosse uma barra de ouro.

O tal deus-menino fugiu do presépio e toma conhaque sozinho em outro planeta, se recusa a participar de festa surpresa onde não pode escolher seus convidados.

E nessa festa só dá gente chata.

Resto de rojão, garrafa vazia de sidra de maçã.

Amor entre os homens, falsidade entre as famílias, boa-vontade passageira.

Feliz natal de carne.

Feliz natal de osso.

Porque são só os ossos que sobram para maioria.

Grito Número Sessenta e Dois:

sábado, 11 de dezembro de 2010

Sobre uma das coisas estranhas que eu fazia com treze anos...

Sempre tive uma paixão misteriosa por cemitérios. Há quem diga que eu os frequentava em minha pré-adolescência para chocar, para chamar a atenção e me fazer notar, mas por tantas vezes fui lá sozinho e não falei para ninguém...
Eu sempre descia a ladeira da avenida principal daquela cidade de interior com meu skate e no final dela encontrava a imagem de São João Menino.
Nessas vezes, dava uma volta geral, lia as lápides, olhava nos olhos das fotos e calculava a idade com que tinham morrido.
Várias crianças mortas.
Lia as frases dos epitáfios e pensava no que eu gostaria que fosse escrito no meu.
Nunca cheguei a nenhuma conclusão.
No final da caminhada, entrava em um jazigo cor de areia e o fazia de varanda.
Acendia um cigarro e ficava olhando o nada por horas, até a tarde morrer atrás dos morros.
Depois eu seguia avenida acima, me sentindo vivo.
Mas quando chegava em casa, já estava escuro, eu tomava um banho, deitava em minha cama com a televisão ligada e me sentia como se minhas coroas de flores já estivessem murchas a anos e a única coisa que mantinha minha memória era uma placa de bronze esverdeada sem nada escrito nela.

Grito Número Sessenta e Um:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sem tempo para pensar em títulos.

Acorda, pega a primeira camisa que encontra no armário e engole um pão no caminho.

Não dá tempo de escovar os dentes, de dar bom dia, de pensar.

Encara oito pilhas de papel, de 40 centímetros cada.

Pareciam totens de tribos canibais.

Sem agilidade seria devorado pelo expediente.

Lê, cataloga, arquiva.

Lê, cataloga e arquiva.

Começa a cantarolar uma canção da década dos homens de chapéu coco.

Percebe que catalogou tudo errado.

Começa tudo de novo desde o começo da canção.

Pensa em entrar para um coral, mas não daria tempo.

Pensa em fazer um esporte, mas não daria tempo.

Pensa em ter mais tempo, mas arquiva tudo errado de novo.

Pausa para o café, bebe dois copos descartáveis.

Coloca o copo na lixeira que diz orgânico, pois já está tudo misturado mesmo.

Serviços bancários, fila, metrô, acende um cigarro no caminho de volta.

-É um assalto.

Perde os documentos.

Não quer mais ter RG.

Não quer mais saber de CPF.

Cansou do padrão, mas nunca soube ser ovelha desgarrada.

Cansou de frases soltas.

Tirou a gravata, deitou em sua cama.

Acendeu um cigarro, serviu um conhaque.

Rezou para Nossa Senhora Aparecida.

Dormiu.

Acordou.

Voltou a dormir.

Abriu os olhos mais uma vez e apanhou a carteira de cigarros da cômoda.

Acendeu outro cigarro e fez um café.

No primeiro gole do café, se encontrou.

E estava lendo, catalogando e arquivando.

Mas estava tudo errado e tinha que começar aquilo tudo de novo.

Grito Número Sessenta:

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



E entre os goles de café pensei em tudo que havia dito.
Acontece que eu estava mudo há anos...

Grito Número Cinqüenta e Nove:

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Química dos Desalmados

Estive bem até agora
Das torturas, sorrisos
Que arranquei dos lábios de uma qualquer
Dos balanços loucos
Desfiz de meus braços
Para de memórias tolas me desfazer

Das cinzas ao vento
O som das almas gritando
Se espatifando em muros de cimento
E nada sobra em sua composição

O gosto é acre, a cova é funda
As experiências mortais
Quanto veneno nestas almas
Que se esvaem no ar
Sem estalos, sem vontade

Lâminas, avante!
Dinheiro, putas, refeições
Mesas de bilhar
Almas a pilhar, sementes de maldade
Horror, iniqüidade
É o que a cidade te oferece de melhor

Das cinzas ao vento
O som das almas gritando
Se espatifando em muros de cimento
E nada sobra em sua composição

Química, química
Ciência e Religião
Café ou Alcoorão?

A moral chocou-se à fé
E destruiram-se os sentidos
Deuses e Homens juntos a ruir
Oração para matar e experiênca para mentir

Química, química
Ciência e Religião
Café ou Alcoorão?


Das cinzas ao vento
O som das almas gritando
Se espatifando em muros de cimento
E nada sobra em sua composição
Química, química
Ciência e Religião
Café ou Alcoorão?

Das cinzas ao vento
O som das almas gritando
Se espatifando em muros de cimento
E nada sobra em sua composição

O gosto é acre, a cova é funda
As experiências mortais
Quanto veneno nestas almas
Que se esvaem no ar
Sem estalos, sem vontade

Lâminas, avante!
Dinheiro, putas, refeições
Mesas de bilhar
Almas a pilhar, sementes de maldade
Horror, iniquidade
É o que a cidade de oferece de melhor

Das cinzas ao vento
O som das almas gritando
Se espatifando em muros de cimento
E nada sobra em sua composição
Química, química
Ciência e Religião
Café ou Alcoorão?

A moral chocou-se a fé
E destruiram-se os sentidos
Deuses e Homens juntos a ruir
Oração para matar e experiênca para mentir

Química, química
Ciência e Religião

Já não creio em fadas, amigo
Falta pouco para os tubos de ensaio me decepcionarem!

Grito Número Cinqüenta e Oito:

terça-feira, 23 de novembro de 2010






                                
Voltava por um longo e seco caminho, fora expulso do Vaudeville.
Os pés descalços marcavam o barro seco.
Alegado que sua fisionomia era grotesca demais para o circo.
Pernas esquálidas, torso monstruoso, face ulcerada cheia de verrugas.
As mãos pareciam galhos finos e secos de outono acompanhadas de uma tatuagem de coração com um nome ilegível.
Para onde iria o homem que nem siameses e mulheres barbadas desejavam?
Continuou a caminhada pensando em quem poderia se parecer com ele, além dos troncos dos bosques.
Se encostou, tentou se recompor. Com vagar, iniciou um devaneio.
Seguiu sonhando em ser um carvalho pelo resto de seus dias.
Os pássaros voavam, o lago refletia os montes do horizonte, o mundo continuava a seguir rumo próprio e o sonho permaneceu.

O homem não, tristemente pereceu mais rápido que qualquer árvore.

Grito Número Cinqüenta e Sete:

domingo, 21 de novembro de 2010

Sobre tufões, levar embora e trazer de volta...

Fiquei lendo besteiras até altas horas da matina.
Só precisava levantar às nove da manhã.
Às oito estava de pé com minha já tradicional nova caneca térmica cheia de café.
Perdi às horas encarando a parede e fazendo nada. Quando bateram onze e meia engoli uns
restos da geladeira para ir ao trabalho.
Estava saindo quando notei o vento levando tudo embora, inclusive quatro dias
ininterruptos de chuva. Um vendaval estava começando e só fui perceber quando estranhamente o vento estava levando meu carro para o lado esquerdo da pista.
Cheguei no lugar onde trabalho e estava deserto. O vento havia levado as pessoas dali também.
A ventania entortou o poste e arrebentou os fios que levavam a força para a repartição. Estava muito escuro e me lembrei naquele corredor úmido e mofado de alguns clássicos do cinema de horror, cheguei até mesmo a imaginar um homem com a cara de couro costurado e uma motosserra nas mãos, grunhindo em minha direção.

Tenho uma imaginação que me rouba do mundo às vezes.

Não haveria expediente pelo incidente da energia, não precisava mais ficar ali.
Que bom, menos seis horas sentado em uma sala úmida sem janela num dia de vento forte.
Voltei para casa pensando no tempo que me sobrava para resolver algumas coisas que normalmente não tenho. Já ia sair quando lembrei que a carteira estava no apartamento. Subi para pegá-la e aproveitei e me servi de mais café. Sentei no meu sofá e fiquei olhando para a parede e ouvindo a melodia odiosa que o vento estava a fazer em minha janela. E fiquei assim por um bom tempo. Fiz pipoca, que adoro, mas a mesma não tinha gosto. O café sim, tinha.
O vento acabou levando as horas também e acabei não fazendo nada todo o dia.
Não tinha ânimo para encarar o vento, nem para sair do sofá.

O vento levou todas as minhas energias.

Esse tufão violento levou tudo a minha volta embora, mas trouxe uma melancolia que eu havia perdido há dias.
Mas ela voltou diferente, eu não estou entristecido como estava antes, estou apático.
Estou com um leve receio que a ventania tenha levado meus sentimentos junto as nuvens de chuva que me davam pingos na janela que tanto me acalmaram nos últimos dias.
Espero que a chuva que vai demorar a vir os traga de volta antes que o vento leve embora mais alguma coisa.

Grito Número Cinqüenta e Seis:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010


Dr. Jekyll Está Morto

O Mr. Hyde tomou conta de mim.
Fez de mim o monstro de dois metros e tanto, com a força de vinte homens.
Mordeu e arrancou uma orelha do homem distinto.
E a camisa
branca que ele usava, ficou manchada de sangue.
Não vai mais sair essa mancha.
Nem com cândida, sabão de coco, nem com água oxigenada.
Porque o Mr. Hyde, na verdade, além de não saber lidar com roupa suja, mordeu foi a própria orelha.

Grito Número Cinqüenta e Cinco:

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sobre eu querer, fingir e ser várias coisas, como por exemplo, o cachimbo do Magritte


Sei que às vezes eu não me conheço muito bem.
Forço um caminho sem efeitos colaterais.
Forço uma gravata no meu próprio pescoço.
Forço uma ambição por alguma coisa que não me importa muito.
E são nessas investidas que eu me sinto como o cachimbo do Magritte.
Eu estou ali, sendo um cachimbo, mas a escritura diz que não.

O que eu sou então, porra?

Eu sei que eu amo o cheiro e o gosto de café.
Sei que eu tenho uma paixão enorme, aparentemente sem motivos, por fiordes.
E que um dos meus maiores sonhos, é sentar sozinho na beira de um deles, numa tarde com um pouco de vento, nada forte, e fumar um cachimbo observando a água bater nas pedras.
Eu sei que eu quero ler muito mais do que eu já li, conversar muito mais do que já fiz, amar muito mais do que amei e visitar lugares que ainda desconheço.
Mas não quero viver mais do que eu vivi, pois o que já passou já está bom para mim.
Eu só quero me encostar numa árvore e saber muita coisa sobre livros e cachimbos.
Porque eu sei, lá no fundo, que mesmo o livro dizendo, "Ceci n'est pas une pipe", eu sou um cachimbo, com um braseiro queimando bonito lá dentro.



Grito Número Cinqüenta e Quatro:

sábado, 6 de novembro de 2010

Sobre o dia em que saí procurando por um fiapo de paz ou só o som dela...

Já me levantei atrasado, um somatório da insônia da última noite com o horário de verão.
Saí atropelando toda tralha do chão do quarto mais do que bagunçado e comecei a procurar por meus óculos que não havia encontrado por todo o final de semana. Era uma segunda-feira.

Que dia odioso são as segundas-feiras.

Como o primeiro período das aulas já estava morto, fui até o trabalho verificar se meus óculos
não estavam por lá, mas não estavam. Eu sempre perco as coisas.
Para não sacrificar o segundo horário corri então para a faculdade. Cheguei lá no mais perfeito
timing. Entrei e comecei a ouvir toda aquele vomitório sobre legislação contratual.

Como me cansa.

Quando o professor juntou suas tralhas, fui pedir uma reavaliação de minha última nota. Melhor
dizer do último desastre que chamou de nota. Ele disse que se fosse corrigir, seria com "reformatio in pejus", ou seja, comigo correndo o risco de me afundar ainda mais. Respondi que tudo bem, pois pior do que estava, eu duvidava que poderia ficar. Ele tentou se esquivar e disse para eu recuperar na próxima avaliação. Eu sei que ele foi simpático e não quer me ferrar.
No ato, me vi atuando como Holden Caulfield e indo embora de Pencey, com os pesares dos professores.
O pior de tudo é que eu estudei pra essa merda. Sou mestre em estudar e me foder.
Quando acabaram os pedidos de misericórdia fui para casa desfrutar dos meus quinze minutos de almoço diários para engolir o que der tempo.
Segui então para o trabalho.
Do trabalho, o de sempre, envio de convocatórias de reunião para os membros do conselho, fotocópias, checar correspondênica e permanecer na gaiola sem janelas que é o meu local de trabalho.
Depois do meu superior se mandar, bati o ponto e saí mais cedo para ir ao médico.
Tento há tempos resolver minhas dores no ombro e dessa vez recorro a fisioterapia. Começarei
logo mais, como último recurso.
Esperei como um imbecil pelo atendimento, a secretária do médico me tratou com todo desdém,
pois critiquei o sistema de atendimento da clínica e da incompetência dos empregados, que obviamente, por dias, me fizeram de idiota. A espera me serviu pelo menos para devorar três capítulos de "O Apanhador no Campo de Centeio".

Há tempos que procuro um personagem em livros que remetam a minha pessoa, o Caulfield lembra muito o garoto que fui anos atrás, muito mesmo.
O médico nem me tocou, olhou todos os exames que levei de antemão de outro médico e de outra consulta.
Pediu outro exame e mandou eu passar com a fisioterapeuta no dia seguinte.

E a dor latejava só para me deixar mais tenso ainda...

Sei que já me parecia um dia dos mais tensos. Dias que tenho a mais pura vontade de queimar
todos os cadernos e jogar computadores na parede.
A espera foi tanta no consultório que perdi minha aula da tarde, já eram quase seis da tarde.
Segui de volta para meu apartamento e quando entrei me senti sufocar, absurdamente sufocado pelos dias e pelas poucas horas.
Não sei se eram as janelas fechadas, as latas de cerveja vazias no canto da cozinha ou a pilha colossal de louça suja.
Mas não havia ar que bastasse para meu peito. Pensei que certamente eu ia explodir, ou em prantos, ou meus miolos mesmo.
Peguei uma nota de dez e fui a pé até o "café das pessoas velhas", bem no coração da cidade.
Comprei dois charutos, um de chocolate e um de cravo-da-índia.
Entrei no carro e fui até a orla da Lagoa dos Patos, engana bem como um genérico de praia, mas as especulações é de que aquilo é um verdadeiro esgoto a céu aberto.
Leva um pouco menos de quinze minutos de carro até lá.
Fui escutando uma banda francesa, que não sei classificar. Não me atrevo a dizer que seja
algo como blues, jazz, pop ou o diabo tocando violoncelo de sunga vermelha.
Foi uma boa escolha de som ao invés dos tradicionais gritos e berros que ecoam das caixas do rádio.
Quando cheguei, já fui tirando os sapatos. Nunca havia tido coragem de pisar na areia, menos ainda de tocar na água.
Pois sei que é suja de esgoto e nunca quis pensar no tipo de porcaria que tem naquela água.
Mas para fugir da escritóriofobia, deixei meus sapatos no carro e segui caminhando pela areia grossa que encontrava
a água, acendi então o charuto com aroma de chocolate e caminhei até o saboroso cilindro de
tabaco se tornar uma bagana pequena. Olhei pra cima e vi umas poucas estrelas. Acho que já havia uns cinco meses que eu não olhava o céu.
Apaguei o charuto na areia e pensei no Holden Caulfield mais uma vez, na cena em que ele leva um soco no estômago, de um cafetão de elevador de hotel, e se flagra depois imaginando dar seis tiros na barriga gorda do infeliz.
Estava frio e ventando muito, mas a água estava morna.
Não tive dúvidas, voltei ao carro e joguei tudo lá dentro: carteira, documentos, dinheiro, telefone
moedas, papéis.
Guardei as chaves dentro da roupa de baixo, do lado do que me proíbe de ser moça.
Voltei ao encontro da areia com a água e me despi, deixei a jaqueta e a bermuda na areia e corri de cuecas pela água, mergulhei de cabeça. Esqueci do esgoto e de todas melecas que poderia encontrar por alí, mas de quebra, esqueci do trabalho, dos problemas,
da tristeza. Não tinha uma viva alma em toda "praia". Fiquei boiando por pelo menos meia hora ali, a água me pareceu até bem limpa.
Mais para o fundo eu via uns peixes pulando, como se fossem golfinhos, foi até que bonito.
Um momento, não sei ao certo, mas creio que um filhote de peixe pulou quase na minha cara
enquanto eu boiava.

Cara, eu morro de medo de peixes desde que me entendo por gente.

Quando saí da água, vesti minha roupa e voltei ao carro para pegar o outro charuto.
Sentei nos bancos de concreto, com uma pequena sensação de paz me cutucando. Meu corpo parecia balançar reflexos das ondas, mesmo eu já estando quase seco.
Avistei um cão errante ao longe e assobiei para ele, mas o mesmo me ignorou.
Apaguei o charuto quando não estava nem na metade, ele já não se fazia necessário. Além do fato de charutos de cravo-da-índia serem uma merda, mas só constatei o fato depois de fumá-lo. As coisas são assim mesmo, só dá pra dizer que é ruim depois da prova.

A noite forte havia chegado enquanto eu me banhava.

Caminhei descalço pelo calçadão e entrei na padaria, pedi um café para viagem e fui tomá-lo em
uma pracinha em frente à padaria, fiquei olhando umas poucas estrelas e a água lá longe.
Chegou então um cão e me pediu um afago, parecia limpo apesar de suas patas traseiras estarem
cheias de dreadlocks no pêlo.
Fiquei afagando o bicho enquanto tomava o café, que estava esquentando o que minha jaqueta
ainda não havia dado conta de esquentar.
Entrei na padaria novamente e pedi uns pães para levar e uma quantia de mortadela, para o
cachorro lá fora.
Eu nunca vi um ser tão feliz com tão pouco e por pouco não levei o ser para casa.
Enquanto voltava para casa, fiquei pensando em mudar para aquele bairro.
Como se estivesse levantando os prós e os contras de ficar longe do centro.
Cheguei no apartamento e comi um dos pães com azeite, depois de um banho quente.
Epifanizei que a água da lagoa estava fria, pois a do chuveiro estava quente. Talvez apenas comparativamente; talvez eu estivesse louco para entrar na água e fingi que ela estivesse morna.
A natação de esgoto havia me esgotado todas as forças.

Depois então, dormi como um anjo de marzipã numa nuvem doce.

Lavei a alma no mar genérico.
Esfriei no vento forte.
Esquentei com um cão errante.

Me lembro que pouco antes de dormir, recordei que ao sair da água, enquanto caminhava pela areia parecia ouvir mil demônios se afogando por ali e cri que aquilo então seria o suposto som da paz.

Grito Número Cinqüenta e Três:

domingo, 31 de outubro de 2010

Ser mulher, sem ser menina

Ela colocou lentes de contato azuis.
E fez do olhar de inocência, pudico; um olhar despudorado.
Pintou o cabelo de sei-lá que cor.
Alisou tudo e colocou uma franjinha até que simpática.
Sugou toda gordura com os canudinhos do médico.
E botou borracha nos peitos.
Se pintou com lápis, muito blush, glitter e sombra.
Passou corretor para esconder o sinalzinho na bochecha.
Se fantasiou de mulher.
Mas a linda meninha que habitava ali dentro, morreu triste e sozinha naquela noite.

Grito Número Cinqüenta e Dois:

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sobre querer tomar mais um pouquinho de conhaque...

Estava lendo. Poema-resposta das minhas crônicas. É legal perceber que alguém se emociona com alguma baboseira que você escreveu. É um sentimento muito bom mesmo.
E eu estava lá, lendo estas respostas e tentando sorve-las quando eu estendi meu braço ao meu copo vazio. A garrafa de conhaque estava na cozinha.
Foi automático, eu quis, enquanto lia, o conhaque.
Mas ele não estava ali.
Tão assim são meus sentimentos, eu quero senti-los e estendo o braço para alcançá-los, mas acaba que eles estão no balcão da cozinha. E já é tarde e fico com preguiça de ir lá pegar.
Nem sei se vale tanto assim o esforço de encher o copo, já que conheço o calor do conhaque.
Mas acaba sempre valendo, pois me levanto e encho o copo e se bebe-lo vou me satisfazer com o calor conhecido, e mesmo que não beba sei que vou acordar de manhã vendo um copo cheio, pelo menos.

Grito Número Cinqüenta e Um:

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sobre procurar piratas enquanto estou bêbado...

Tomar uns tragos sozinho numa noite de sexta-feira.
Esperar minha testa adormecer.
Chegar naquele momento que nem sei como consigo escrever.
Nem sei como começar a pensar no que quero escrever.
Como consigo estar aqui.
Não sei como cheguei a tentar escrever sobre algo.

E fico beirando o mar, com as mãos nas ondas, tentando pegar alguma coisa, qualquer coisa.
Mas a àgua passa por entre meus dedos e não me deixa de mãos limpas.
Acabo enfiando a cara na água, pra tentar me afogar de mentira, pois sei que sou covarde demais pra aguentar me ver faltando o ar.
Me sobra a boca salgada de mar para lembrar do Tyler Durden que não me acompanha.

Mas, na verdade, quando afundo tudo na beira da praia, só procuro navios naufragados ou piratas amaldiçoados.
O cheiro de rum do meu bafo deve atrair lobos do mar, daí vou tentar me encontrar com um corsário, pra ver se ele acaba levando a dor embora nas pilhagens que ele faz.

Grito Número Cinqüenta:

sábado, 16 de outubro de 2010



Sobre abster-se e permitir

Eu não sou fã de abstinência
Sempre fui fanático do exagero,
De perder minha carne nas unhas
De qualquer um.
Mas eu sei
Que quando voltar,
Quando eu puder voltar a mim
Vou tirar o fone do gancho
Preparar alguns cigarros
E trancar a porta
Por pelo menos três dias
e curtir o exagero que a abstinência me oferece.

Grito Número Quarenta e Nove:

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu Me Apaixonei Por Ninguém, De Propósito

Eu me apaixonei por ninguém
Depositei meus votos, devoto
Eu me entreguei ao vento que secou
Meu suor que sempre esteve a me afogar

Dos copos de veneno bebi alguns que contém
Algo que vá para muito além do escopo
De algo que somente maltratou, desditou
O calor de minhas mãos a me congelar

Os restos do corpo
As feridas de mentira
Quisera eu devorar com afinco qualquer alguém

Meus dias de morto
A falsa sede de ira
Eu odiei a mim mesmo, me apaixonei por ninguém

(Somente para poder sofrer isolado, desolado.)

(Como me maltratei, só para poder ter sobre o que escrever...)

Grito Número Quarenta e Oito:

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sobre Plenitude Esmagada...


Eu me lembro que um dia foi vaso caro. E que uma chuva de concreto esmigalhou tudo.
Os desenhos que se enrolavam na porcelana se tornaram mosaico de nada.

Dadaísmo puro.

Pedaço de lixo com pedaço de verso sem sentido.
Desenhos de patriarcas que não se aceitam.
Desenhos de seios que se aceitam, mas não se entendem.
E claro, fraternidade que não se importa.
Mas estão aí pelo chão.

Como cacos.

Que cortam, que machucam a todo e qualquer movimento do meu corpo fraco.
Que ferem e marcam todo pensamento meu.
Que destróem o ego, que fodem com tudo.
Que se afogam em copos de rum com gelo.
Que geram convicções em individualismo.
Que geram descrença em plenitude.
Que furam canoas e me fazem usar a de Caronte.
E se não quero carona infernal me queimo indo à nado.
E quando bate a ira em minha porta.
Vem mais chuva de cacos, para provar que dá pra esmagar tudo ainda mais.
Até que sobre só poeira do que um dia foi um vaso caro.
Que se ostentava numa sala em que ninguém podia entrar.

Grito Número Quarenta e Sete:

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Sobre escrever com tinta preta...

Havia acabado de publicar um poema-protesto sobre alienação e exploração religiosa, coisa bem ácida, pouco fina.
A obra era intitulada "O vendedor de Homens Mortos", nada mais do que o homem que vendia a imagem de messias ocidentais, para se entupir de moedas de ouro.
Enquanto fazia a publicidade virtual da obra, o chefe do meu chefe, ou seja, meu chefe supremo, me faz a pergunta: "Por que és tão mórbido?"
Respondi o que me veio à mente, disse que me letrei lendo Baudelaire, Augusto dos Anjos e Allan Poe e que havia crescido assistindo a filmes de terror de quinta categoria como "O Palhaço Assassino", meu filme favorito aos 6 anos de idade.
Até hoje, quando assisto "O Massacre da Serra Elétrica", "A Hora do Pesadelo" e outros "clássicos" vejo poesia e homens que só queriam ser entendidos.
Disse também que não vivo só disso, que ao ler "O Pequeno Príncipe", a obra do francês desperta o que há de mais puro em mim. E que sou assim, sou mesmo puro. Que sempre leio da bucolia e do amor de perdição, mas ao momento de traçar as linhas de escritor de botequim, me faltam essas palavras.

Fico mudo.

Por isso prefiro dar meus gritos mudos, por isso prefiro refletir sobre as trevas, pois nelas pareço mais brilhante e reluzente do que talvez eu realmente seja.
Ele disse que havia me entendido e que estava muito bem justificado, de forma muito inteligente.
Reiterei "não sou, nem nunca fui um roqueirinho de vila", minha forma de retratar tudo que sinto através de morbidez se dá de uma forma natural. Talvez eu pilhe esses "corpos verbais" para me sentir mais vivo do que eles. E são nas caveiras dançarinas, que bailam canções esdrúxulas nos cemitérios que vejo, todos dançaremos esta dança funesta um dia, e somente quando nos tornamos esqueletos bailantes que deixaremos todas as diferenças, só quando somos crânios e ossos, nos tornamos homens iguais. As caveiras que eu retrato, somos nós, homens.

Sem classe social, sem cor de pele, sem nada de diferente.
Só quando esqueléticos, nos tornamos homens puros.
E sempre foi isso que busquei, ser puro.
Ver amor nas trevas.
E por ver sinfonia, poesia e amor no lúgubre e no funesto me deixa cada vez mais próximo do que busco ser.

O amor mais puro que existe.