Grito Número Setenta e Nove:

quarta-feira, 9 de março de 2011

SOBRE A UTOPIA DE MORUS, ATINGIDA ÀS 02:33a.m. DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS EM UMA CADEIRA DOBRÁVEL, SER DESTRUÍDA EM MENOS DE QUATRO SEGUNDOS POR APENAS UM SER HUMANO MISERÁVEL...

Toda uma sociedade se cansa da falta de catarse nos sentimentos reprimidos.
Uma flor de narciso nasce do meio do catarro e gelo. Um mendigo lendo "A Gaia Ciência" enquanto jaz de bruços em um sofá imundo e abandonado que em questão de dias se tornará apenas um pedaço de espuma imperecível.
Imperdoabilidade ao jogar tijolos em financeiras. Rostos cobertos por bandanas vermelhas.
Deusas indianas de braços arrancados, crucifixos descartados e minaretes tombados e ruídos.
Não há mais dinheiro, consequentemente não há mais o que dever.
"O Capital" foi substituído por "O Pequeno Príncipe".
"Desde 1967 trabalhando em pleno inverno, todos esses anos. Que o teto e o piso salarial se fodam. Eu quero sonhar! Durante os invernos da minha vida, eu quis conhaque e jazz, era só isso que eu queria mesmo, caralho. Um brandy Gold Napoleon e um vinil do Sinatra no lugar dessa porra de neve, nunca pedi demais!" - Discursava o jovem senhor de cabelos grisalhos num tom quase religioso.
Crianças em seus doze anos tombam ônibus e incendeiam livros de equações de segundo grau.
Se aquecem nas chamas enquanto entre risadas desfrutam de Salinger e "As Flores do Mal".
Comem doces de marzipã e bebem sucos azulados nas embalagens de revólver.
Uma bandeira negra, apátrida, balançando tímida pelo pouco vento naquela noite gelada anuncia o fim das fronteiras.
O fim de mil eras de grilhões mentais.
O início de tudo que estivera um dia em represália por ser bonito demais para existir.
Então, um jovem metido a escritor, coração de boêmio e barba por fazer, mesmo estando feliz com o resultado e crendo no potencial futuro de reconstrução que estava por vir, estragou e ruiu tudo com apenas dois pequenos atos.
Abriu seus olhos esverdeados que cerrados estavam há alguns minutos e acordou.




Sugestão pós-leitura desse devaneio todo é a música-tema de Clube da Luta, executada pela banda Pixies, que casa perfeitamente com a intenção do texto.

2 comentários:

bruno di chico disse...

Cara, você escreve bem pra c+++++. Vou entrar aqui com mais frequencia e me influenciar com seus belos textos. Grande abraz.

Patrícia Lemmon disse...

Gostei da música.