Grito Número Oitenta e Um:

quinta-feira, 17 de março de 2011

SOBRE EU TENTAR ESCREVER COMO O VELHO BUK...



Estou lendo e me deleitando com "Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea" de Charles Bukowski. Tentei, como um exercício, me valer do seu estílo escatológico, vagabundo, visceral, verdadeiro e cru de lidar com as palavras, bem como trazer uma narrativa não habitual do que estou acostumado a colocar (ou atirar) para fora. Preparei então a inspiração e encarnei o velho e destrutivo Henry Chinaski. O que surgiu foi um conto, que assim batizei:




COBAIA, COMIDA FRANCESA E NUVENS DE METANO

Albert estava fodido. Andava fodido há anos. Não tinha dinheiro, comia sobras dos restaurantes e recolhia baganas de cigarros nas vielas para montar seu cigarro nos guardanapos que roubava das lanchonetes que colocavam mesas nas calçadas. Eis que houve um dia que um sujeito ruivo, com um grande bigode cor de ferrugem se deparou com aquela figura patética e imunda. Alberto fixou seu olhar naquele bigode laranja e não escutou as duas frases que o senhor enferrujado de sardas havia proferido.

-Hey! Você ouviu o que eu disse?
-Desculpe, não estava prestando atenção.
-Me chamo Larry. Quer ganhar uma grana?
-De quanto estamos falando? - disse Albert jogando, pois aceitaria até um pedaço de pão com mais idade que ele.
-Que tal quinhentos dólares semana?
-Quem eu tenho que matar?
-Lhe explico, quer tomar um café, ali na esquina da Rua Denver?
-Eu aceito uma cerveja.

Caminharam uma quadra e meia até a bendita esquina e se sentaram em uma das mesas do lado de fora da loja. O garçom reconheceu Albert das afanadas de guardanapos, mas se resignou a atendê-los normalmente.
- Um café preto para mim e uma cerveja para meu amigo, por favor.
- Você prefere Pilsen ou Lager?
- Meu amigo, faz tempo que bebo água de viela, me traga qualquer uma, ou a mais gelada.

Larry riu do semblante de asco do garçom esboçado por meio segundo.
-Vamos direto ao ponto - disse Albert.
-Certo. O negócio é o seguinte. Eu não consigo satisfazer plenamente a minha mulher.
-Beleza, eu como ela tranquilo.
Já fazia um bom tempo que Albert não trepava com ninguém, além de suas mãos. Ele usava a mão esquerda para finjir que era uma mulher desajeitada. Idealizou a mulher em questão e até colocou nome
nessa punheta especial de garota falsa.
-Não é bem assim. Você não vai fazer sexo com ela - disse Larry afrouxando sua gravata.
-Me diga... como é mesmo seu nome?
-Albert. Albert Foster Jr..
-Então, Albert, o negócio é que não consigo peidar.
-Que diabos? Não entendi.
-Já ouviu falar em flatofilia? É o prazer sexual atingido através do inalar de peidos.
-E sua mulher curte cheirar peido?
-Ela cismou que quer isso agora. E faço tudo por ela.
-E você quer que eu peide como? Em uma garrafa?
-Não. Nada disso. Você vai encostar o cu no nariz dela e fazer o serviço de uns bons peidos de quinhentos dólares semanais. Enquanto isso eu faço sexo com ela.
-Cara, que coisa doentia.
-Eu acho estranho também, mas é a minha esposa e faço tudo para vê-la feliz. Além do que, você andou comendo muitas coisas estragadas, deve ter uns traques bem fedorentos.
-O que você acha de uma amostra grátis?

Albert levantou uma de suas pernas e soltou uma bufa cuja sonoridade parecia a de mil helicópteros trombando no ar. O aroma da bomba era indiscritível.

- Que nojo, homem. Acho que vou vomitar minhas roscas do café da manhã.
Dito e feito. O mingau azedo que acompanhava o cheiro de flato no ar casaram-se para formar algum tipo de cheiro letal.
Antes que acontecesse o pior naquele espaço onde outras pessoas se alimentam, foram embora.
Larry deixou uma nota de cinquenta dólares pela cerveja e café que não vieram e pelo fedor de vômito e flato que deixaram ali.

-Minha mulher vai adorar, de bônus vai ganhar esse cu que não deve ser limpo desde o crash de 29.
-Em 29 eu nem tinha nascido, caralho! Não avacalha.
-Estava brincando.

Entraram no carro de Larry. E que carro! Um Bentley R Type Continental preto, com as tiras brancas nos pneus dando um toque de requinte luxuoso.
Andaram por quinze minutos com as janelas abertas, pois Albert fedia um pouco, não da peida mortal que soltara, mas do acúmulo de sujeira e craca dos últimos tempos.
Quando chegaram na mansão, Albert já foi assoviando.

-"Fiiiu"! Que cabana!
-Vamos direto ao que interessa.

Deixaram o Bentley com o manobrista e entraram pela cozinha. Albert já foi pegando a garrafa de whiskey que estava sobre o balcão e tratando de dar uns goles.

-O quarto é por aqui. Vanessa deve estar nos esperando.
Subiram dois lances de escada e entraram na porta que estava a direita.
Quando Albert fitou Vanessa ficou no mesmo momento de pau duro. Estava de camisola vermelha, totalmente transparente. Era uma morena de uns vinte e oito anos, no máximo. Novíssima, ainda mais para
um coroa rico de bigode ruivo.
-Esse que é nosso assoprador.
-Assoprador! Ha-ha! - disse Albert.
Foram curtos e grossos. Vanessa já estava de calcinha abaixada nos joelhos e Larry esfregando seu pinto em Vanessa, tentando encontrar uma ereção.
-Vai Albert! Peida nela! - Larry estava estimulado com a alegria de sua ninfeta.
Albert abaixou sua calça de brim surrada e encostou o rabo no nariz da Vanessa e fez força. Não saía nada. Temeu fazer mais força e cagar na boca da mocinha, mas sentiu que uma rajada de vento
à base de metano estava a caminho. Foi um barulho surreal e o cheiro idem.
Vanessa sentiu aquele cheiro repugnante e gozou na mesma hora. Depois quis encerrar as atividades.
-Meus parabéns. Você é um excelente assoprador - disse Vanessa dando um tapinha em sua costas.
-Aqui estão seus quinhentos dólares e mais cinquenta de gorjeta por ter feito um bom trabalho. Pegue esse extra e vá ao "Le Château de Fontainebleu" na Rua Maple, como lá todos os dias, você não irá se arrepender.
Volte amanhã.

Albert não via aquelas cores verdes havia muito tempo. Contou umas vinte vezes o dinheiro.
Pegou um táxi e foi para o centro. Foi ao barbeiro e pediu por um serviço completo. Tirou toda a barba amarela de sujeira e fumaça de cigarros remendados e deixou o cabelo bem curto.
Depois foi ao alfaiate e comprou seu melhor terno. Estava começando a parecer com Larry, exceto pela cor dos pêlos, que de ruivos não tinha nada - era todo grisalho. Estava estiloso e bem apresentável.
Foi ao "Le Château de Fontainebleu" e pediu metade do cardápio. Comeu canapés com caviar, bebeu champanhe francesa e tomou duas garrafas de vinho, comeu um ensopado de vitela e duas tigelinhas de Crème brûlée.
Sentiu vontade de dar um arroto, mas segurou. Pagou tudo e deixou cinco dólares para o garçom.

Foi até o Hotel do Parque e pediu por um quarto simples.
Tirou seu paletó novíssimo e deitou com a barriga estufada.
-Larry tinha razão, valeu cada centavo, comi como um rei - a última palavra saiu arrotada.
Dormiu como um barão cigano.
Quando acordou com o sol violentando sua paz, já era a hora de realizar seus serviços sujos.

Apanhou um táxi e chegou na mansão nada modesta em aproximados vinte e cinco minutos.
-Fique com o troco.
Como da última vez estava o casal pronto para a ação, Vanessa de camisola, desta vez preta, e Larry estava pelado. Tinha os pelos do pinto ruivos também, mas Albert evitou olhar para aquele cano enferrujado, embora chamassem demasiada atenção.
Nem repararam a barba feita de Albert, nem o terno, estavam esperando os peidos.
Já estavam na posição sexual de costume, com Albert encostando seu cu peludo prestes a expelir uma núvem de sabores sombrios no nariz de uma amável esposa de um senhor ruivo.
Forçou, forçou e nada de gases.
Perdeu até o medo de cagar na cabeça da garota, mas não saía nada.
-Não vai rolar! - disse Albert
-Ah! Então é a comida do "Le Château"! Eu bem que desconfiava, porque depois que eu comecei a comer lá, nunca mais tive gases, e olha que tenho úlcera.
-Pode deixar que eu não como mais lá. - Albert disse como funcionário proativo que estava se tornando.
-Esqueça, eu também não vou comer. Seus serviços não são mais necessários aqui. Pode se retirar, por favor.



3 comentários:

Patrícia Lemmon disse...

Achei cômico hahaha... Existem tantas manias obscuras na visão de algumas pessoas e para outras algo tão natural... e essa facilidade que as pessoas aceitam serem usadas por algum dinheiro.

Você escreve muito bem contos!

Cecília Arsky disse...

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Anônimo disse...

Bom conto mas ainda não é o seu estilo.

Bruna Barievillo