Grito Número Oitenta e Sete:

terça-feira, 5 de abril de 2011

NICTOFOBIA

Certas coisas nunca mudam, isso já sabemos. Mas o que é novidade para muitos é que certas coisas não mudam nada.
Nos esforçamos tanto para esconder quem somos por debaixo das tatuagens sociais que maquilam nossos Quasímodos de Notre-Dame, mas no escuro, somos quem somos, feras indomáveis, bisões feridos e observadores cegos de nossas imagens no espelho.
O escuro aqui narrado é um espaço sideral apenas seu, o lugar de aconchego onde niguém pode lhe ferir, ninguém pode lhe julgar. Entenda que nesta escuridão protegida, quem lhe parecer ter a certeza de poder acompanhar, jamais abalará sua proteção.
Este escuro é bom.
É onde os fracos se escondem e onde os fortes mostram que são fracos também.
O escuro tem mães mortas e pais bebâdos, tem luxúria e castidade, tem roupas íntimas sujas e seringas usadas do lado de imagens de santas católicas rachadas.
Ninguém tem o rosto tão confuso quanto este se faz no escuro. O escuro pode lhe revelar tudo, mas na maioria das vezes, nem mesmo nós nos enxergamos no escuro. Ficamos de joelhos e imaginamos dolorosamente quem somos na realidade.
Não tenha medo de acender as luzes do seus escuros, não tenha medo do que possa lhe assombrar.
Porém cuidado, chamas iluminam tanto quanto queimam, portanto tenha talento para iluminar. Não obstante encontramos peças de um quebra-cabeças que jamais saberemos montar.
São pedaços do que fomos e do que seremos.
Somos nós.
E boa-sorte.

4 comentários:

Patrícia Lemmon disse...

quem somos na realidade? Gostaria de acender as luzes qdo na minha escuridão estou, mas é isso, não sei se tenho talento...

Leonardo Otero disse...

É incrível como a convivência faz com que as pessoas conheçam tão profundamente outras pessoas, ainda mais numa convivência tão constante e bem dizer íntima. Espero poder um dia retribuir toda a amizade e aconchego que recebo, porque por mais que faça, sempre sinto que ainda falta muito pra equilibrar!! Valeu mesmo pelo texto!! No word's!!

Anônimo disse...

Ninguém nos conhece no escuro, as vezes nem nós mesmos. A única certeza é de que todos temos esqueletos no armário, no fundo do armário...no fundo e no escuro do armário.
Grande texto, vc está cada dia melhor no exercício de se revelar e se conhecer através das teclas que martelam na tela branca.

Bruna Barievillo

Monique Burigo Marin disse...

A claridade fere mais que a escuridão, quando pensam que não posso ver estou vendo a beleza de um mundo inventado.
Transformo meus cacos em arte, faço mosaicos, penduro na pele e saio por aí vestida do que já fui.