Grito Número Sessenta e Três:

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um baobá cheio de corvos.

Seus bicos amarelos iluminam o ambiente lúgubre.

Seus grasnados ecoam uma melodia infernal.

Olhos arrancados de corpos estão perdidos meio aos galhos, qual enfeites natalinos.

Abandonados por abutres que deixaram de lado a carniça para tornarem-se urubus-rei.

Mas de rei esse urubu só tem o título.

As flores do dia de finados já estão secas e formam um colorido de tons pastéis tristes e amarelados.

Um crisântemo branco agüenta o sol de dezembro com afinco.

Esbanja vida adornando a morte dos outros.

Arco-íris de arame farpado.

Prato de alumínio levemente amassado e vazio.

Criança cheia de catarro e fome.

Um velho esquálido com camisa vermelha de propaganda de partido político de esquerda pega latas do lixo e engorda seu saco surrado de estopa.

Chuva de verão, molha tudo ao mesmo tempo em que o sol torra a todos.

“Casamento de espanhol” dizem das janelas as velhas que olham matreiras o movimento dos vizinhos e da travessa em que moram.

Escola vazia, rua imunda, vômito da véspera festiva.

Silêncio mortal da manhã.

O presidiário tirou férias da cadeia para bater em sua esposa e cheirar um pouco de pó, só volta dia dois do ano que vem para sua gaiola falha e degenerada.

Um senhor gordo fuma cachimbo em sua varanda observando as folhas secas.

Uma criança rica doa um carrinho sem rodas para uma criança pobre que recebe como se fosse uma barra de ouro.

O tal deus-menino fugiu do presépio e toma conhaque sozinho em outro planeta, se recusa a participar de festa surpresa onde não pode escolher seus convidados.

E nessa festa só dá gente chata.

Resto de rojão, garrafa vazia de sidra de maçã.

Amor entre os homens, falsidade entre as famílias, boa-vontade passageira.

Feliz natal de carne.

Feliz natal de osso.

Porque são só os ossos que sobram para maioria.

3 comentários:

Monique Burigo Marin disse...

O sol que castiga os pés descalços é o mesmo que alegra o amanhecer de quem teve o lar invadido pela chuva. Eu penso muito nisso quando olho para o céu, nas possibilidades infinitas da singularidade que é puro plural. Às vezes as nuvens cobrem o sol e eu agradeço por poder enxergar com mais clareza.
Torço para que, enquanto a nossa própria carne apodrece, ainda nos reste estômago para festejar as pequenas coisas.

Patrícia Lemmon disse...

Achei triste...

Patrícia Lemmon disse...

Oi Dan, eu novamente haha
Bem, no meu blog tem um selo pra ti, na guia 'Selos'... não sei se você liga muito pra isso, mãs como eu gosto do que você escreve, te passei o selo.

Beijos