Grito Número Cento e Setenta e Um:

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O MISANTROPO (clique na tirinha para ver em tamanho grande)


misantropo |ô| 
(grego misánthropos, -os, -on

adj. s. m.
1. Que ou quem tem aversão aos seres humanos. = ANTROPÓFOBO ≠ FILANTROPO

2. Que ou quem não gosta da convivência social. = ANTROPÓFOBO

3. Que ou quem é melancólico.

Grito Número Cento e Setenta:

quarta-feira, 16 de maio de 2012

DA SOLIDÃO E SEU RITUAL DE EVASÃO


Quando o sono vem, coço as pálpebras e encosto com suavidade minha cabeça no travesseiro, mas não cerro os olhos. Deixo-os tornarem-se pesados sozinhos e os sinto fechar lentamente, sem que eu manifeste minha vontade. Enquanto  as areias do João Pestana não chegam às têmporas, vão voando as ideias na minha mente sempre inquieta. Penso em barcos de papel e desses chego até "O Velho e o Mar", tento entender os leões dos sonhos do protagonista narrados na última página. Penso em ter força, como os leões. Não gosto de carneiros, então nunca faço esse tipo de contagem, apesar da sua dignidade, não serve para dar sono a ninguém.
Na ocasião, era quase três da matina e nada. Peito pesado. Ninguém ao lado no colchão sem lençol até que ela chegou nua e desvirtuosa, caminhando com seus passos mancos e sorriso afetado: a solidão voltou para me fazer companhia. Qualquer idiota sabe que tristeza e insônia não combinam.
Levanto e penso em beber um pouco de café velho da térmica.
Queria mandar essa moça pálida e noturna para longe. E eu conheço muito bem o ritual para fazê-lo: é buscar um canto, colocar conhaque garganta adentro para amansar o peito, que funciona como soda cáustica e um ralo imundo, cheio de cabelo, bagana de cigarro e limo. Um maço de cigarro devorado enquanto olho pela janela e vejo as árvores e escrevo versos brancos na minha cabeça e penso em metáforas escrotas para usar nos meus textos. E depois, tudo passa, tudo volta ao normal, ou pelo menos finjo acreditar que o normal seja a calmaria contínua e não o lapso de tempestade. 
E agora, que me deram quarto sem janela, e é proibido fumar, e nesse quarto existe lei seca e toque de recolher?
Sem o ritual a solidão fica, me joga na cama, faz amor comigo a noite toda, deixa suor no travesseiro encardido. Só vai-se embora quando nasce o sol, mas a filha da puta me abandonou grávido de um feto sem rosto

Grito Número Cento e Sessenta e Nove:

sábado, 12 de maio de 2012

A COR DOS ÓCULOS


É comum nos clássicos do cinema e da literatura a personagem protagonist se perder em uma falsa percepção de realidade. Entre "tijolos amarelos", em "O Mágico de Oz" e universos virtuais, como em "Matrix", a dúvida chega aos de pensamento mais inquieto?
Aristóteles  era pragmático quanto aos seus sentidos, algumas de suas descobertas e análises foram posteriormente invalidados por experimentos mais minusciosos. A realidade aristotélica passou a ser uma falsa percepção da realidade, o que confirma a relatividade das verdades ditas absolutas.
As pessoas e seus diferentes pontos de vista, experiências e crenças acerca de todo o universo! Está aí a razão de tantas escolas filosóficas, de religiões e até mesmo de times de futebol. Incrivelmente, a realidade absoluta é variável com os olhos de quem a observa.  A verdadeira realidade é feita aos nossos olhos, como um curinga em um jogo de cartas, o valor é dado pelo jogador que a tem em mãos. E há um versinho em espanhol, supostamente atribuído a Cervantes, que casa exatamente com esta afirmação: "En este mundo traidor, nada es verdad, ni mentira... todo es según el color del cristal con que se mira".

Grito Número Cento e Sessenta e Oito:

segunda-feira, 30 de abril de 2012

DE PEDRA


Meu coração é daqueles duros, duros feito pedra.

Pois somente assim para conseguir amar em tempos como esse.

Grito Número Cento e Sessenta e Sete:

terça-feira, 24 de abril de 2012

SÓ EXISTE LUA NOVA PARA O QUE NÃO LEVANTA A CABEÇA PARA NADA

Ela era uns poucos pares de anos mais velha do que eu. Sua pele era tão pálida quanto o astro a que fazia referência seu nome.
Mas a pobre Luna não era tão feliz quanto uma noite de luar de céu purpúreo, devido à circunstância dos fatos. Boatos sobre uma libidinosa aventura solitária na sauna do clube renderam-lhe apelidos maldosos de cada jovem malicioso que vivia naquela pequena, pacata e maldita cidadezinha provinciana do interior do Paraná.
Eu tinha por volta de doze anos e ela já era uma moça, quando eu a via passando vexaminada pelos corredores de nosso colégio. Seus lindos olhos negros sempre olhavam para baixo. Eu só a conhecia de vista e de boatos, cada vez maiores.
Um dia eu disse para aqueles olhos tímidos de tão ridicularizados que foram por tanto tempo: - Oi, Luna! - e sorri um sorriso imbecil e inocente. Ela ergueu seus olhos sem dizer nada, me sorriu com o canto da boca e seguiu seu caminho. Vi pequenas estrelas em seu olhar e ouvi as velhas águas passarem por debaixo da ponte sem deixar saudade.
Ela nunca me disse uma só palavra, mas seguiu sempre sorrindo para mim com seu canto tímido, talvez por eu ter usado seu nome uma vez no lugar do apelido infame. 
E quão tolos eram os que não puderam enxergar, ainda que todos seus boatos fossem verdades, como eram inocentes aqueles olhos escuros!


...Ah, eu e minha mania boba de romantizar os personagens da vida real!
  

Grito Número Cento e Sessenta e Seis:

segunda-feira, 16 de abril de 2012

 PARTE DE MIM VIAJA EM UM CASACO XADREZ DE PERFUME ALMISCARADO

Uma linha escrita é um pedaço da gente posto para fora.
Às vezes é um teco que se vai e dói tanto...
Às vezes é um alívio ver o pedaço partindo, escorrendo pelo ralo abaixo.
Algumas vezes é suspiro, algumas vezes é grito.
E por mais estranho que pareça, há uns vários estranhos levando pedaços meus em seus bolsos.

Grito Número Cento e Sessenta e Cinco:

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ainda que esteja quase morto, absorva as cores. Devore os arredores. Relembre as canções que fizeram seu coração parar, antes que este pare, daquele jeito chato e desbotado.

Grito Número Cento e Sessenta e Quatro:

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SOBRE PLANTAR E NÃO COLHER, POIS NEM TODA PLANTA DÁ FRUTOS (OU AQUI SE FAZ E ACABOU)

Não existe recompensa, nem terrena, nem divina, para quem faz uma bondade.
Mas é, como se uma recompensa fosse, recebê-la.
Um pétala sozinha, não vai nunca fazer arder a primavera, mas abre um sorriso de canto de boca da dona da pele que a toca. E se houver maré de flores em breve, que venham os sorrisos.



Mas aquela pétala é inesquecível...





(Quanto mais pessoas aderem à um comportamento ético, 
independente de recompensa e análise de mérito, 
mais fácil fica das ações éticas chegarem a você. 
Isso é além da pétala, isso é também uma semente.)

Grito Número Cento e Sessenta e Três:

segunda-feira, 2 de abril de 2012

SER FORTE

Grito Número Cento e Sessenta e Dois:

quarta-feira, 28 de março de 2012

SOBRE OS SORRISOS PONTUAIS E OS BEIJOS COM BOCA DE HORTELÃ


Cotidiano vai muito além do que rotina. Enquanto esta é apenas um cronograma simplório do que deve ser feito reiteradas e reiteradas vezes, o cotidiano integra as emoções e as vontades destas ações cronogramadas e das pequenas manias pessoais que existem entre dois momentos anotados na agenda da rotina.
Cotidiano é mais do que ir do botão do despertador até a caneca amarela de café, do café até a banca de jornal, da notícia desimportante de meia página ao assento do metrô e do trabalho para o colo de quem se ama no final do dia.
Meu cotidiano envolve analisar a forma que seus olhos tomam enquanto você lê das coisas que não me interessam, e a forma que tomam quando me descobrem flagrando a menina dos seus olhos contraindo com a luz da sala. Está em pensar no livro que quero escrever e nas minhas cartas que foram para o exterior.
Não está na minha rotina a dor que sinto nas minhas costas e que faz apertar o peito, como se eu tivesse perdido um grande amor.
Rotina é fazer riscos no calendário, cotidiano é lembrar que hoje pode ser um dia especial. A rotina é austera, não gosta de mudanças repentinas, sempre é rígida e regida. O cotidiano gosta de novos cheiros e de ser flexuoso, é uma rotina paralela que não pode ser planejada.
Está na minha rotina sentar no Largo Ana Rosa depois que almoço (almoçar também está no cronograma), mas o que eu penso e o que me faz suspirar não pode entrar no quadro das praticas constantes, ainda que constante sejam. Também não pode entrar na rotina o meu olhar para os pombos papudos que se cortejam por lá; a rotina não gosta de olhar para as pequenas coisas da vida.
Meu cotidiano engloba também a forma a qual todos os dias observo o jeito de seu cabelo escorrer pelo rosto. Está na maneira em que mordo meus lábios, contendo o riso, depois das saudações e abraços de "bom dia", na tentativa de sentir gosto do seu cheiro.
A rotina destaca o destino final e o horário em que se deve comparecer,  mas sempre existem diversos caminhos para chegar.
Estes caminhos são o cotidiano, e também todas as paisagens que se pode observar, e todas as esmolas que se dá, e pássaros que se olham, e helicópteros que passam, e cafés de balcão que se tomam, e estranhos para quem sorrimos também.  
E nenhum desses pequenos costumes que integro no meu cotidiano estão embutidos na minha rotina. O cotidiano é sempre o segredo de quem ama (ou de quem pensa demais); o cotidiano é a alma da rotina. E, por aí, andam cotidianos desalmados...

Grito Número Cento e Sessenta e Um:

quarta-feira, 21 de março de 2012

FULANINHO, EX-POETA

Fulano queria ser escritor, desde pequenino inventava suas histórias fantásticas.
Mas o destino o fez advogado, formado em direito em uma universidade tradicional com registro e uma carteirinha da ordem dos advogados com uma foto 3x4 muito bacana.
Frustrado, fazia suas petições ao juiz em forma de poemas e enfeitava as bordas com filigranas coloridos. O juiz, sisudo e sem qualquer sensibilidade artística, sempre indeferia o pedido.
E Fulano, sem clientes, parou de escrever e ficou muito rico. Muito mesmo!
E hoje, conta sua história de superação; a trajetória de menino pobre ao advogado sênior de multinacional. Colecionador de motocicletas Harley-Davidson, piadista de elevador e bebedor de bourbon americano.
Com todos seus ternos italianos e contas bancárias, usava a tal história de vencedor como um disfarce, pois sabia, que com tudo aquilo que tinha, era mais pobre que o menininho que fora um dia.
De alma enegrecida pelos procedimentos, pelas gravatas e pelos nós windsor-largo cotidianos, percebeu-se sufocado tantos e tantos anos depois.
Em um momento de sua vida, quando os primeiros fios brancos sobrepujaram suas madeixas, correu desesperado até seu escritório no último andar e pegou na terceira gaveta um bloco de papel e empunhando sua MontBlanc como se uma adaga fosse, tentou pensar em um verso, que não saiu.
Sua trajetória estava perpetuamente maculada. De menino pobre ao status de grande advogado, de advogado à condição de assassino: o garotinho que sonhava em ser escritor, fora brutalmente assassinado.

Grito Número Cento e Sessenta:

sexta-feira, 16 de março de 2012

DEIXAR DE VIVER


Gosto de vento nos lábios frios
Luz que ofusca a visão e voz que condena
Minha alma que te ama é a mesma que me envenena

Mundo de perfídia e escárnio paralelo
Com o pouco que construo, de labuta me flagelo
Com o suor enxugado pelos calos, acorrentado por liberdade
Tiro de mim o que mais incomoda de verdade

Sem mais olhos em olhares
Nenhum navio no porto
O dia em que deixei de amar
Foi o dia em que me encontrei morto.



   Foto: Dan Arsky

Grito Número Cento e Sessenta:

sexta-feira, 9 de março de 2012

PERSPECTIVA

Percebeu que o mundo, seu mundo, era torto.
Sem delonga, inclinou a cabeça e sorriu.

Grito Número Cento e Cinquenta e Nove:

terça-feira, 6 de março de 2012

CHERNABOG NO ESPELHO DE PRATA


Qual as sombras que protegiam, escuras iguais, havia a sobra da noite fria, do monte calvo e das hostes celestiais.
Embora não fosse o morro que chorasse as noites e as sombras como se vivo, eram as minhas almas, de meu peito.
Eu era o monte Calvo, eu era meu próprio inimigo.


Escute enquanto lê:

Grito Número Cento e Cinquenta e Oito:

quinta-feira, 1 de março de 2012

APENDICITE

Tudo o que nos compõe, obviamente, é parte de nós. Pedaços que, como tijoletas, nos moldam. E como qualquer coisa em meio ao caos, podem, de uma hora para outra, gritar e agir como se possuídas por demônios. 
Tudo que se abafa uma hora pede pra sair.
É a deixa da lâmina que extirpa o pedaço especial.
Mas o pedaço especial nunca fará falta, como o livro bonito na estante, que nunca mais foi lido.
Alguns pedaços, ainda que pareçam importantes, são só apêndices das coisas que importam.

Grito Número Cento e Cinquenta e Sete:

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

GUERRA E PAZ

Guerra e Paz (1952-1955) - Cândido Portinari - Sede da ONU, New York - USA

PAZ

O trabalho
A criança
A foice suada
A balança
E o cavalo na dança
Marcha com confiança
De que escuta uma canção
O povo lindo
Pintado sorrindo.

GUERRA

Enquanto de outras fronteiras
Mulheres, crianças, aldeias
Aos gritos, aflitos
A armadura, vergonha
A tortura, tamanha
E na cova-de-lobo os restos em espetos
Enquanto as bocas dos lobos trucidam
Um povo cansado, esgotado
Afogado nas poças vermelho-carmim
Pintado arfando, orando, pedindo por fim.

Grito Número Cento e Cinquenta e Seis:

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"POR FAVOR", O MOLOTOV

Desde sempre me identifiquei com diversos elementos da contracultura: nas artes plásticas, na música e nas atitudes e no modo vanguardista de pensar. E de certo modo parte dessa gama ajudou na construção do meu caráter atual.
Uma das secções que mais aprecio e me idenfifico é o punk, não há como negar que isso faça parte de quem eu sou. Gosto de quase tudo que foi parido pelo punk: de hardcore, pós-punk, metalcore e de outros gêneros alternativos que tenham um salpico de tendência da moicanada do final da década de 70.
Sempre admirei a postura político e o modo escrachado e tosco de se expressar. O ato de cuspir (n)aquilo que é intragável na sociedade. E criticar os costumes, ridendo castigat mores, simplesmente fazendo diferente, com um alfinete na orelha e um cabelo espetado já se tinha o bastante para criticar o mundo e tentar mudá-lo.
"Mudar o mundo" sempre será bonito, mesmo no dia que o mundo dispense mudanças.
Mais de trinta anos passados do fatídico ano de 1977, depois do Ramones, do Clash, do Ratos de Porão, do Inocentes e de todas as outras "desgraceiras" terem gritado as palavras da desordem e da mudança. Hoje essas palavras musicadas em poucos acordes tornaram-se hinos para alguns, mas não surtem mais o mesmo efeito chocante de antes.
Hoje o baixo calão e o desdém imperam no cotidiano. Do esbarrão no trem ao táxi roubado de alguém que estava na frente, nas furadas de fila e no funk dos celulares.
Hoje em dia, valer-se da educação, da construção e defesa dos direitos dos sem voz é o novo "destruir e contestar", é a nova face da contracultura, visto que contracultura é o inverso do popular.
Dizer "muito obrigado" é um dos maiores protestos do século XXI, enquanto "por favor" é o novo molotov.
ATACAR!

Grito Número Cento e Cinquenta e Cinco:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CABEÇAS COMO AS DE BAIXO (OU UMA IDEIA EXCITANTE)

Sempre desenvolvo a vã filosofia enquanto espero para atravessar a rua. A luz vermelha que me impede de correr pelo asfalto e morrer atropelado sempre ilumina minha mente com pensamentos insanos.
Outro dia, parado frente à faixa de pedestres pensei que a criatividade é como uma ereção repentina. Pode-se utilizá-la no ato e abusar de sua espontaneidade, e, com isso, ser feliz por quinze minutos ou menos (ou se arrepender por algum tempo).
É o momento de escolha entre amar demais ou sofrer por fazê-lo.
Ainda pode escolher o caminho de deixá-la ali, rija e latejando, incomodando até ir embora e voltar em uma hora mais oportuna, à noite, por exemplo. Mas na hora oportuna, ela deixa de ser espontânea e perde
aquele aspecto sentimental e animalesco.
E daí entrou outra comparação, pensei que ter a melhor das ideias, não colocá-la no papel no ato e perdê-la na mente é como lidar com criatividade: pode ser broxante.

Grito Número Cento e Cinquenta e Quatro:

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O HOMEM SEM NADA


Outra folha de papel rasgada
Mais uma marcação no calendário
O tempo borra a visão do escafandro
E você não tem nada na mão!

Mais uma feição envergonhada
Mais uma vez o brado de falsário
Um homem está se tornando
Mas trata-se de um homem sem pão!

Isso tudo irá passar
As lágrimas vão secar
É só mais uma pequena decepção!

E quando o nada se evidenciar
Ou a medalha imaginária se apagar?
Será só mais um vexame na minha coleção?

Grito Número Cento e Cinquenta e Três:

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Personagens da História da História de uma História 
(ou A Menina Que Gostava de Sangue)


De lápis apontado em seu caderninho de notas, a garotinha sardenta e de cabelos ruivos começou a traçar um conto impróprio:

"Um filete de sangue escorre pelo peito e tem como nascente a garganta do violador. Um corte pequeno e não-letal.
 -Por favor, não faça isso! - disse o homem amarrado.
-Cale-se. - disse a moça enquanto amolava a faca.
-Pelo amor de Deus, eu imploro.
-Deus não vai te ajudar agora, amigão.
A lâmina entra dois centimetros pelo umbigo e desenha um sinuoso e vermelho caminho. 
Ecoavam ganidos. Era clara a dor. Vômito pelo chão. Ataque convulsivo e histeria.
E eu, sentada, ria sem parar da dor que ele sentia."

Já estava tudo isso escrito no papel e a menina sonhadora esperava ansiosa ou pela oportunidade de publicar suas linhas sangrentas, ou pelo dia que realmente isso pudesse acontecer. 
Seu sonho não era ser escritora, era ser personagem.
E um dia, um cara de óculos e barba que queria ser escritor escreveu um texto chamado "A Menina Que Gostava de Sangue" e a ruivinha virou personagem.
Mas quando escreveu o texto, o barbado se colocou na história e virou personagem com a sardenta. 
E todo mundo quando leu esse texto virou personagem também.
E essa é a história da história dos personagens dessa história sem sentido algum.

Grito Número Cento e Cinquenta e Dois:

domingo, 15 de janeiro de 2012

ADAGA E ESPELHO

Estava por baixo, tudo azul de tristeza e problemas.
Era um homem bom, não poderia sofrer sem motivos, a culpa era de alguém, era a hora de lutar.
Pegou o papel, já amarelado pelo tempo e passou a vista pela lista dos culpados de suas escaras.
O único nome em sua lista negra era o seu próprio nome.
E deu início ao combate mais árduo de todos os tempos.

Grito Número Cento e Cinquenta e Um:

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A INCRÍVEL (E CURTA) HISTÓRIA DO HOMEM QUE FOI E FICOU AO MESMO TEMPO


A carne e as vísceras se foram; ao pó retornaram.
Quedaram em terra nada além de seus ossos e cabelos, suas páginas, a ideia e a poesia por detrás de tudo.
Em volta, os muitos que choravam à lápide não pensaram que os esqueletos estão sempre a sorrir.
E, meu deus, como aquela nova aquisição da indesejável de veste escura gargalhava de satisfação.

(RIP - Daniel Piza

Grito Número Cento e Cinquenta:

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MÁGICA

Milhares de pessoas estavam pelas ruas, o clima estava quente, porém a garoa fina amenizava o calor de uma multidão ansiosa. Eis que dois olhares conhecidos se encontraram na multidão; havia tempos que o par de olhos negros e brilhantes não encontravam com aqueles olhos esverdeados de mistério. Ambos sorriram de imediato e correram ao encontro um do outro.
O cancioneiro, a celebração popular e os fogos de artifício começaram no mesmo instante do estalo do tímido e morno beijo do amor recém-(re)nascido.
Era fato que fora apenas uma perfeita coincidência, tanto do encontro, quanto da sincronia com o festejo, deixando este ainda mais eufórica a sensação, mas não houve ninguém, em todo aquele aglomerado de gente, que os convencesse que aquilo tudo não era minimamente arquitetado somente para os dois. 
Era ano novo, e tudo que era velho, era novo também.

Grito Número Cento e Quarenta e Nove:

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

VOLVER

A neve me faz adormecer na trincheira. 
Eis que chega a solidão no ataque.
Munida de baioneta, tabaco e conhaque.
Espeta meu peito e diz que não haverá esperança.

Sem clemência.
Sem tempo ou paciência.
Vou defianhando.
E quando quase agonizando,
E nos meus erros pensando, 
Chega aos ouvidos uma doce voz
Que diz que não preciso mais estar só.

E a voz me revigora.
E meu peito que até então chora
Me mostra que depois do negro agora
Pode vir manhã clara

Mas volta a noite para minha trincheira
E mais forte e derradeira
Volta camuflada a solidão
Me toma a mão e me leva mais uma vez ao trapo.
E à baioneta, ao conhaque, tabaco. 



Grito Número Cento e Quarenta e Oito:

MESSIAS TORTOS

Filosofia vã, crença barata em deus morto
Quero crer, mas não vejo fé, nem mesmo em mim
Minha face carrega o resto do corpo
Em um barco ou em um copo com fósforo ou gim

Ser o poeta da carne, o escritor maldito
Por isso fugir, por isso aflito
Por isso superar
O limite entre céu e mar

(O horizonte está torto)

A maleta, o chapéu
O cachimbo, o pincel
A batalha contra o eu
E as estrelas gritando no céu

(-Esquiva do gancho, pega o canalha!)

E assim, que toda fé (ou falta dela) se esqueça
Pois tudo faz sentido
Quanto tudo além do umbigo
Está de ponta cabeça

(E isso continua a não ser um poema.)

Grito Número Cento e Quarenta e Sete:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

UM TROFÉU PARA UM FILHO DA PUTA


Estive percebendo a falta que me faz uns toques da minha antiga vida. Da nossa antiga vida.
Me faz falta correr no meio da noite até um posto de gasolina para voltar com uma sacola de cervejas, claras para mim, escuras para você. Sinto saudade do seu controle dos momentos em que devo ou não acender um cigarro. 
Sinto a falta de escrever os meus textos à meia-luz enquanto você repousa depois do sexo. Sinto falta do cheiro do nosso quarto depois do sexo. É claro que a quantidade de sexo também faz muita falta. 
Às vezes finjo que estou lendo para lembrar de umas trepadas colossais. Outras vezes, cheiro o meu antebraço finjindo que são suas costas. Me sinto patético e solitário nessas ocasiões. Como uma árvore do cerrado brasileiro: isolado e torto.
É engraçado ver que ao decorrer do tempo amadurecemos; mudam-se os costumes, os gostos e o jeito de viver. O semblante matura e o olhar para o mundo também. Mas o amor não tem escolha, ou fica jovem para sempre ou definha como uma flor daquelas que umas velhas vendem na volta das bodegas, o famoso "troféu-de-puta". E sei que o amor que sinto está jovial, afinal, eu busco isso, sempre vou buscar ser o amor mais puro que existe.
Foi então que, pensando em tudo isso, nas faltas, ausências e "troféus-de-puta" murchos que me dei conta que estou rejuvenescendo.
Meu caminho foi retrocedido e voltei no tempo. Voltei para a fase de ter hora para voltar para casa, de resolver problemas matemáticos que não tem relevância, nem utilidade para mim e para mais uma gama infinita da população do mundo. E estando eu jovem como anos atrás, estou fazendo malabarismos com um amor maduro. Parece que esqueci como lidar com isso. 
Elefante bêbado em loja de cristais. 
Filho da puta em dia dos pais.
E pode parecer que eu disto quando o assunto é o tal do "troféu-de-puta" murcho, mas a verdade é que os espinhos dessa flor do caralho doem muito mais do que qualquer puta desse mundo (ou filho dela) pode imaginar.

Foto por ElectricSixx

Grito Número Cento e Quarenta e Seis:

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

LACÔNICO

lacônico | adj.
(latim Laconicus, -a, -um, da Lacônia)
Breve, conciso; em poucas palavras.

Fiz uma poesia com mais de uma centena de versos duodecassílabos, rimas ricas e chave de ouro no final.
Com nanquim e pena passei para um papel fino e imponente, do preço por folha prefiro nem tecer comentários.
Quando lhe entreguei, recebi um tépido "que lindo".
Outro dia, depois de uma discussão filosófica no bar, entre bebidas e petiscos, brigamos feio.
Entreguei a ela um guardanapo de papel amassado, escrito à esferográfica (daquelas que ficam perdidas nas bolsas e bolsos):

"É amor, e ponto."

Ela me sorriu um sorriso desconcertado, inocente e lindamente incandescente (e ganhei o que queria com pedaço de guardanapo amassado).

Grito Número Cento e Quarenta e Cinco:

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SOBRE TIRAR LIÇÕES DE FORÇA NO ASSASSINATO DE RASPUTIN

Sempre que leio, me espanto com o assassinato de Grigori Rasputin. De conselheiro do Czar a presunto russo.
Segundo a lenda, o poder de hipnose e controle da mente do místico de Petrogrado (atual São Petersburgo) era tão forte, que mesmo após se empanturrar com um jantar envenenado, não sentiu nem mesmo um mal-estar. Há quem diga que uma úlcera no estômago o salvou, mas a versão do controle da mente é mais interessante e instigante.
Após a tentativa falha de ser envenenado, fora fuzilado com onze tiros, que ainda assim não foram suficientes: o homem levantou.
Cansados e apavorados, espancaram-no até Rasputin ficar inconsciente, quando o jogaram desmaiado e de mãos atadas nas águas gélidas do rio Neva. Assim, não há poder da mente que aguente. O poder da mente era agora um pequeno pedrisco de gelo.
Não sei o quanto disso é lenda e quanto é fato. Não importa, o que vale é pensar no vigor e na força do personagem, e só. Um personagem ímpar e inabalável, nem mesmo por veneno ou tiros de fuzil.
E eu sofrendo por algumas palavras que me foram ditas...


Grito Número Cento e Quarenta e Quatro:

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O RÁDIO MONSTRO

Era uma radiola simples, não tocava fitas ou discos. Seus botões e painéis sugeriam um rosto robótico assustador aos olhos de algumas crianças. A menina sabia; o preâmbulo das cenas tristes, histéricas e deprimentes de sua vida eram dadas pelo ligar daquele tal rádio. O volume alto que chegava aos seus ouvidos fazia seu coração fibrilar e suas mãos tremerem.
Como qualquer pessoa normal, não gostava de brigas, ofensas gratuitas ou violência desmedida. Mas se o rádio maldito estivesse com seus transistores tinindo e fazendo a transmissão, era certo o destino do que seria recebido.
O morador insano sintonizava a AM: brigas sobre o que vai ser dos próximos dias ou como o gatinho que a menina carregava sempre em seu colo era asquerosa (o que era uma grande mentira). E voavam copos, vasos de flores e palavras pontiagudas. A reação da mistura das canções do rádio e das discussões sempre eram lágrimas, impreterivelmente. E sempre somente lágrimas da pequetita. O homem louco de bigode pontudo e olhos sem cor definida seguia a programação de uma rádio pirata em FM: o que gerava agressões físicas e degradações morais sem sentido.
Cansada de tantas farpas, a menina resolveu valer-se de toda sua sagacidade. Inverteu o circuito, mexeu nos transistores, entortou a antena para lá, para cá e para todas as outras direções depois disso, arrancou algumas peças e substitui por algumas partes específicas de sua boneca. Fez o trabalho de um Dr. Frankenstein do mundo sintético.
Era pouco mais de seis da manhã quando os dois homens de bigode subiam a escadaria discutindo se era hora de ouvir AM ou FM. E farfalhavam sobre o que era melhor, discutiam sobre as cantoras do rádio, sobre qual o melhor noticiário entre outras trivialidades.
Se aproximaram do aparelho de som e o puseram na tomada. A menina tapou os ouvidos e riu um sorriso afetado lá de longe. Um deles já girava o botão de sintonia antes mesmo do outro alcançar o plugue da tomada e ligar aquela radiola maldita.
Plugue na tomada, luzinha vermelha do stand-by, botão ON para cima, faísca, fumaça, curto circuito, explosão.
O rádio se partira em uma dúzia e meia de pedaços pelo chão. Os homens ajoelharam-se e recolheram os pedaços como se recolhessem partes de uma criança que pisara em uma mina terrestre. Um deles trouxe um saco pardo e vazio de pão e o fez de saco de lixo para os restos mortais do que um dia foi um eletrodoméstico. Jogaram o lixo no lixo.
Sentaram-se em suas cadeiras de vime como de costume, mas em pleno som do silêncio. Um deles abriu o jornal o outro acendeu o cachimbo cor de madeira cor de marfim. Ambos olharam para a menininha sorrindo suavemente por detrás de seus bigodes. Eis que um deles, entre goles de chá de anis-estrelado, diz para a menina:
-Que vestido adorável está usando, garotinha. Te faz mais linda.
-Tens razão. Combina com esses grandes e brilhantes olhos negros. - disse o homem mais velho.
A menina sorriu, e seguiu sorrindo até ser moça.
Não existia mais o som de rádio naquela casa modesta e ninguém mais fazia questão, o som da paz parecia ser um melhor motivo para dançar.

Grito Número Cento e Quarenta e Três:

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

SOU UM OPERÁRIO ÀS CEGAS

Quando eu enxergava, gostava das tirinhas do jornal. Ainda me lembro bem dos traços do Calvin e do Minduim, mas dos outros sobrou um grande borrão de nanquim na minha memória. Eu já não posso mais rir dos quadrinhos.
Já não posso mais acompanhar com a vista o rebolado das mulatas moças, das ruivas sardentas e de todas as outras. Me sobrou apenas o perfume para aspirar quando elas passam por mim, mas já nem ligo para os cheiros traiçoeiros.
Também não posso mais curtir o som da música. Com a audição aguçada pela falta de visão, quando não ouço o menor dos desafinos, que já fazem meus ouvidos sangrarem, eu apenas não suporto a batida dos pandeiros ou mesmo a respiração daquele que canta acompanhado do batuque de caixinha.
Do meu antigo trabalho pouco restou. Ainda sinto as marcas da botinada do patrão, que despediu o mais novo inválido do mundo. Me sobrou também o capacete alaranjado que eu usava quando estava no torno. Hoje em dia, o capacete me serve para arrecadar meus trocados na Domingos de Morais. Posso odiar quase todos os sons existentes, mas do barulho das moedas tilintando dentro do meu "elmo de proletário" eu gosto. É mais harmonioso e dá mais esperança que o som de qualquer samba, além de me garantir um prato feito, um cigarro solto e se a "recolha" do dia for boa, me sobra ainda um ou dois tragos de "Fogo Paulista".
Sempre espero que não seja julgado por meus vícios. As pessoas acham que quem passa o chapéu, esperando a comoção dos outros, não pode ter vícios. Quando a pessoa é desse tipo, faço questão de não enxergá-la mesmo. Sou só alguém comum, com erros iguais, com os mesmos medos e com alguns abalos e desventuras a mais no currículo. Sou alguém que leva desvantagem em um dia bonito ou em uma noite estrelada. Dia e noite, não importa, é sempre lua nova para mim.
Estou velho, minha barba branca já diz isso por mim. Eu não sei fazer mais nada além de ser torneiro, mas já devo ter esquecido disso também.
Mas há de se balancear a minha história. Não sou de ficar valendo apenas de choramingos. Sempre desconsidero o melhor e o pior de tudo isso para tentar ser imparcial. O melhor é ficar sentado e ouvir o barulho das moedas de quem eu acredito que tenha vaga lá no paraíso (e não estou falando da estação do metrô). O pior de tudo é não poder olhar essas pessoas nos olhos. Mas tenho na minha cabeça que são olhos brilhantes de criança, como um dia os meus já foram, antes de se tornarem opacos e sem cor alguma.

Grito Número Cento e Quarenta e Dois:

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O MELHOR E PIOR SURDO (OU O MELHOR DANÇARINO DA MINHA RUA)

Escuto músicas cujas letras dizem muito sobre sua pessoa, enquanto degusto um conhaque de segunda categoria.
Penso, suspiro, suponho, escrevo.
O conhaque é a bebida oficial da solitude.
Me imagino em uma valsa, mas eu não sei dançar nem isso. Não tenho ritmo, muito menos coordenação motora suficiente.
Sempre tropeço no meio-fio e nos desníveis das calçadas. Algumas vezes, tenho a proeza de tropeçar nos meus próprios pés.
Acendo um cigarro mentolado e o fumo jogando fumaça janela afora. Desta vez elas não formam desenhos, venta forte pelo corredor de prédios. A noite é fria.
Se existe um lugar que foi projetado para a melancolia ter estadia é este parapeito de janela.
Eu aprecio a vista da minha rua úmida, mal-iluminada e vazia e faço analogias óbvias e outras sem sentido fora da minha cabeça.
Apenas quero que exista uma canção sua com meu nome, na verdade, eu não quero nem ouvi-la. Ouvi-la me faria mudar de rumo.
Quero apenas que ela exista e seja a sua canção secreta. Aquela que está sempre fora do repertório. Aquela que nunca foi tocada depois de composta.
Quero que ela tenha poucos acordes, dos mais vagabundos e mal trabalhados.
Que a faça vomitar as borboletas que podem existir em sua barriga.
Que a faça voar.
Quero que essa música apenas exista, para que eu posso supor a sua letra, supor o lirismo em potencial, pois não me importo com o que pode ser ou com o que poderia ter sido.
Eu só me importo em sonhar.
E enquanto eu sonho, eu danço. Danço na rua úmida que é só minha.





Grito Número Cento e Quarenta e Um:

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O AMOR MAIS PURO QUE EXISTE


Existe na flor murcha com bom perfume.
Está no brilho do inseto que é o vaga-lume.
Está no beijo da moça em seu padrinho morto.
Existe no sentimento da criança pelo homem torto.

Está nos galhos de inverno que não sustentam flor.
Existe no maquinário enferrujado que solta nuvens de vapor.
Existe no luar da lua nova que não ilumina.
Está no delírio colorido de uma febre repentina.

Quarenta graus, quarenta-e-um. E as cores aumentam...

Existe na timidez do olhar desajeitado.
Está na tentativa de dança do esmoleiro aleijado.
Existe no riso contido do menino favelado.
Está na mão levada à boca do palavrão que escapoliu.

Está no remédio amargo que, no final das contas, cura.
Existe em achar que ama, não dizer e fingir que é tortura.
Está na tristeza que surge justamente na noite mais escura.
Existe na auto-ironia do monógolo do mal-amado.

Está nas vielas sujas e nos tapetes vermelhos.
Existe nas prostitutas dos becos e nas freiras de joelhos.
Está no torpe e vil e também no canonizado.
E viverá eternamente no sorriso franco dos desdentados.

Grito Número Cento e Quarenta:

terça-feira, 8 de novembro de 2011

MEMENTO MORI

É fato sabido que todas as pessoas tem problemas a serem superados. Um dos mais edificantes para elas é vencer uma morte iminente, ainda que o caminho mais suave seja morrer. Porém, existem problemas em todas as facetas da vida humana, na social, acadêmica ou amorosa. Viver é transpor as barreiras impostas pela vida. O suor da vida tem gosto adocicado.
Não é raro sabermos de uma história de um personagem da mundo real que superou grandes limites; uma doença, uma perda familiar ou uma árdua escalada até a conquista de um curso superior. Estas histórias cativam e inspiram muitos, principalmente os portadores de problemas semelhantes.
A vida balbucia entre o prazer e a dor, entre momentos de plumas e lâminas. Estes dois polos de sensasões são inerentes aos próprios caminhos da vida. Há séculos a filosofia estuda a necessidade do homem de buscar prazer e fugir da dor. Há quem diga que o martírio é o caminho do triunfo e que o mesmo dá mais sabor aos momentos posteriores de glória.
A máxima latina "memento mori" significa "lembre-te, homem, que um dia irá morrer". Um homem só inicia sua vida no dia em que descobre que ela logo mais terá fim. Aquele que quer se sentir vivo deve recordar desse lema dia após dia e com isso tomar o fôlego para vencer e superar os fracassos e entender, na mais bela epifania, que mesmo sendo sinuoso, oscilando entre a dor e o prazer, o melhor desta vida é viver.

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"Tyler Durden: Escute aqui! Você tem que considerar a possibilidade de que Deus não gosta de você. Ele nunca te quis. Que provavelmente, Ele te odeia. Isso não é o pior que pode acontecer.
Narrador: Não é?
(...)
Tyler Durden: Dane-se a condenação, cara! Dane-se a redenção! Nós somos os filhos indesejados de Deus? Então que seja!
Narrador: OK. Me dá um pouco de água!
Tyler Durden: Escuta, você pode passar água na sua mão e fazer a queimadura piorar ou...
Narrador: [grita]
Tyler Durden: Olhe para mim... ou você pode usar vinagre e neutralizar a quimadura.
Narrador: Por favor, me dê... Por favor!
Tyler Durden: Primeiro você tem que se render, primeiro você tem que SABER... não temer... SABER... que um dia você vai morrer."

Diálogo da Queimadura Química - Clube da Luta

Grito Número Cento e Trinta e Nove:

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

SOBRE DITADORES MORTOS, MISSÕES TERRORISTAS IMAGINÁRIAS E POMBAS MORIBUNDAS

Pela manhã, enchi minha caneca amarela de café e fiquei observando (pela enésima vez) a fumaça fazer formas divertidas.
Antes mesmo de abrir o jornal, li a manchete. A primavera árabe tinha vencido. Kadafi estava morto. E eu sabia o quanto o povo da Líbia tinha a comemorar. Eu mesmo estaria dançando a morte do símbolo de mais de quarenta anos de ditadura e opressão.
Comecei então a pensar em me tornar um assassino político. Um Guy Fawkes tupiniquim que viajaria até Brasília, detonaria toda a obra do Niemeyer e faria um espetáculo de pólvora e tortura com cada símbolo de corrupção, sujeira e sacanagem que habita o planalto central. Assassinei mentalmente vários políticos que me irritam por simbolizar toda a corja de bandidos que dão destino a esse país.
Até me imaginei sendo preso e dando depoimento para o Jornal Nacional, com aquela cara de fanático atormentado: “O povo brasileiro sabe que sou um herói, um herói do povo!”. Pensei que teria realmente coragem de tirar a vida de um fascista nojento que compra o voto dos mais pobres e ignorantes.
Um tempo depois, estava próximo da Avenida Paulista e resolvi parar em um boteco de segunda categoria para um belisco entre o desjejum e o almoço. Pedi dois ovos cozidos coloridos, um azul e um rosa. Se você é um paulistano e não comeu nunca em sua vida um ovo colorido, não é um paulistano genuíno. Se você não é paulistano, mas já comeu um ovo colorido numa bodega duvidosa em São Paulo, é praticamente um paulistano. O mesmo serve para churrasquinho grego e aqueles torresmos peludos. Vale também para quem tornou tomar café da manhã na padaria um hábito.
Quando saí do botequim, vi uma pomba encostada no canto de uma livraria, que eu pretendia entrar, mas ainda estava fechada. A pomba era toda preta, não fosse o seu formato tão característico, seria um corvo. Ela se equilibrava em uma das patas e encolhia a cabeça para dentro do corpo. Não voava, mesmo se sentindo ameaçada pelos transeuntes. Suas penas estavam opacas e seus olhos piscavam devagar.
Eu sabia (e não era preciso ser um veterinário ou um cientista para notar) que o bicho estava para morrer.
Meu coração se encheu de tristeza ao ver a decadência de um dos animais mais decadentes de todo o reino animália. De símbolo do espírito santo para rato de asas. E aquele pombo em específico, de rato de asas para rato moribundo.
Tentei me convencer de que não deveria ter pena de um animal que é uma praga nos grandes centros urbanos e que é vetor de uma infinita gama de doenças. Mas a decadência da decadência sempre amorna o meu peito. Eu tenho afinidade com o fundo do poço.
Cheguei a conclusão de que não teria coragem de ser o assassino da minha missão imaginária “Fawkes Tupiniquim”, que eu tinha arquitetado pela manhã, pelo simples fato de que eu tinha respeito aé pela vida dos ratos de asas dos centros das cidades. Mas depois concluí que os pombos não são tão asquerosos como os detestáveis de Brasília.
No final, senti que seria incapaz de tirar uma vida, ainda que dos grandiosos filhos da puta que estão no comando. Me senti um inútil por um segundo, mas percebi que a maneira que eu tenho para lutar é minha tentativa de tirar doçura de um cenário cuja protagonista é uma pomba moribunda.

Grito Número Cento e Trinta e Oito:

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SOBRE O RÍMEL VALER COMO MOLDURA

A conheci nos últimos meses. Sempre me destacou a maquiagem levemente borrada que cercavam seus cílios compridos. Acho que ela chorava escondido sempre. Já a vi chorando uma vez, era de cortar o coração. Aquela maquiagem borrada era como a moldura do lindo quadro que eram seus grandes olhos escuros.
Sempre me sorria um sorriso juvenil e simpático. Trocávamos pouco mais que cumprimentos formais.
Um dia fiz uma pequena caricatura no canto de minha caderneta e entreguei para ela.

- Sou eu? - ela me pergunta rindo.
- Sim. Os olhos não correspondem, parece que no desenho você está hipnotizando alguém. Mas no geral, está parecido. - respondi.
- Está muito legal. - disse sorrindo seu sincero sorriso espontâneo.

Outro dia, enquanto ela contava as cédulas de dinheiro, me mostrou que guardara o meu rabisco em sua carteira. Para mim, aquilo tinha mais valor do que se eu expusesse grandes telas nas pinacotecas mais badaladas de São Paulo.
Em um certo momento, estava assistindo a um documentário sobre imagens, cenários e composição cinematográfica e comecei a rabiscar um bloco de papel reciclado enquanto assistia. Eu estou sempre rabiscando alguma coisa. E percebi que o pedaço de semblante que eu havia desenhado, do lado de outros desenhos irrelevantes, era muito semelhante ao dela. Eram os olhos dela, os olhos que não estavam compatíveis com a caricatura de canto de caderno que eu havia feito.
E o que narrei agora não foi fruto de uma paixão pueril, de um amor de perdição ou de atração sexual por uma mulher, foi apenas uma epifania trazida à tona por um par de olhos escuros e brilhantes.
O que me rendeu observar esse par de olhos e desenhá-los depois foi descobrir que enquanto muitos pensam em mudar o mundo cortando cabeças de ditadores, jogando molotovs flamejantes nas embaixadas, fazendo poemas-protesto contra o parnasianismo ou votando nulo nas eleições presidenciais, esta mocinha mudava o mundo simplesmente passando sua vista por sobre as pessoas.

Grito Número Cento e Trinta e Sete:

domingo, 30 de outubro de 2011

MEMÓRIA DO AMADEU

Meu tio Amadeu era dono de um pequeno sebo numa travessa da Teodoro Sampaio. Me lembro de sua imagem sentado entre os livros, fumando seu cigarro, com sua caneca de café nas mãos. Lembro que o sebo era muito limpo e organizado. Brinquei com ele algumas vezes que para o sebo dele criar cara de sebo, tinha que bagunçar todas estantes e deixar tudo úmido.
Me lembro também, com muita nitidez, que nas festas de natal da família ele me perguntava, na mais pura brincadeira, se eu não gostaria de mudar meu nome de Daniel para Amadeu, pois era supostamente um nome muito mais bonito. Ele também me ensinou que de um sanduíche de padaria se faz três, porque na padaria eles sempre põe mortadela suficiente para isso, portanto é só pedir dois pãezinhos a mais junto com o lanche.
Ríamos disso enquanto ele bebia suas latinhas de cerveja sem álcool.
Não éramos muito próximos, mas sempre soube tirar intensidade dos nossos escassos encontros. Amadeu era irmão da falecida esposa de meu tio-avô materno.Era tio dos meus primos de segundo grau. Na verdade, ele era parente dos meus parentes e não meu.
Amadeu não tinha o mesmo sangue que o meu correndo em suas veias. Não éramos parentes de sangue, mas hoje, quando me flagro em meio dos meus livros, segurando a minha caneca amarela fumegante cheia de café fresco e aspirando tudo que é possível ver de belo nesse mundo, vejo que antes de partir, meu tio Amadeu deixou um pouco de seu sangue dentro de mim.

Grito Número Cento e Trinta e Seis:

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ELA(S) E AS NOTAS

Eu tinha deixado minhas notas sobre a mesa e saído para tomar uns drinques no bar em que existia no térreo do prédio onde ficava o quarto que eu alugara nos dois últimos meses. Ela dormia profundamente e não cri que fosse um descuido.
Eram partes de muitos pensamentos, sentidos, sabores e experiências manchadas de vinho barato e café solúvel. Essas notas são pequenos orgasmos de nanquim perdidos num escroto chamado caderneta. Quando encontro um óvulo, que é a conclusão ou epifania de uma porra qualquer (literalmente-figurada, nesse caso), nasce o embrião de uma crônica minha.
Mas voltando, as notas estavam sobre a mesa e eu estava pedindo uma cerveja qualquer, desde que a garrafa fosse de vidro verde. Foi quando lembrei que as notas estavam escancaradas e esparramadas e que talvez ela acordasse do sono de vinho e lesse algum pedaço de papel que dissesse respeito a sua pessoa. Estavam ali as fodas selvagens e as brigas de garrafas-projétil (que normalmente terminavam em novas fodas selvagens). Ali estavam suas qualidades que eu nunca elogiava e seus defeitos que eu não dava importância. As notas contavam de velhos tempos meus, de prostitutas e conhaque, da época que fui expulso do clube de charutos, do tempo que acreditei que usar bigode me faria mais charmoso e menos solitário.
(...)
Que cerveja espetacular, é belga? Holandesa? Interessante... Falar das notas? Que notas?
Ah! Me perdi de novo! Estava falando sobre a ânsia que me veio de correr para o quarto para impedir que ela lesse as notas que saíriam no livro que eu ia publicar naquele tempo, não me lembro o nome agora, já faz uns bons anos. Acho que era "Alguma Coisa Não Existe em São Paulo" não me lembro se era "Solidão", "Vidro Limpo" ou "Fazer Feio", não importa. Eu sabia que depois de publicado ela não leria, pois sei que ela não gastaria o dinheiro do vinho e dos cigarros de menta em livros, ainda que meus, ainda MAIS dos meus, ainda que fossem dela mesmo, se soubesse escrever qualquer merda que prestasse. Uma vez, na animação de me ver datilografando, me escreveu um soneto horrível, senti vontade de vomitar quando li tamanho lixo. Era um pelo do cu do Pablo Neruda. Ela só era boa em dar colo para o meu pensar de bêbado, em me dar apoio para meu andar embriagado, em trepar sóbrio ou transbordando vinho pelos poros.
Então... as notas na mesa! Tomei dois goles grandes da cerveja e deixei uma nota de cinco para pagar a long neck, deixei o troco pra trás e naquela época, cada centavo fazia falta. No meio da escadaria, joguei a garrafa no chão, agora vazia, mas ainda (e eternamente) verde. Segui correndo até o sexto andar, fim do corredor, quarto 609.
Peguei minha chave, trêmulo e com uma dificuldade facilmente superada, abri a porta.
O quarto tinha um preço ótimo, por isso tantas semanas por lá, mas era um pouco fedido e mofado e a água da pia tinha gosto de ferro. As paredes tinham musgo e o armário da mini-cozinha usava arame no lugar das dobradiças das portas. Um muquifo de requinte.
Perdi o foco novamente, do que eu estava falando mesmo? Ah, dela e das notas!
Então, não me lembro direito quem era ela e não me lembro se ela leu ou não as notas, se eu publiquei as tais notas em um de meus livros e se nos meus livros já falei sobre isso.
Mas falando nisso me lembrei de uma coisa. Estamos aqui conversando, o papo está ótimo, mas eu deixei umas notas em cima da mesinha de café no quarto que aluguei essa semana, bem aqui em cima desse bar em que estamos bebendo agora nossas cervejas holandesas, e uma moça que conheci na noite passada, aqui no bar, está dormindo na minha cama agora e não quero que ela leia as notas que falam sobre ela e o que fizemos ontem. Vou subir até lá e dar uma checada se ela não acordou e guardar as notas na pasta, o lugar mais seguro para elas. Mais tarde eu volto para terminarmos essa cerveja e eu vou lhe contar uma história que aconteceu comigo, quando uma de minhas mulheres leu sobre ela.

Grito Número Cento e Trinta e Cinco:

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PORQUE MEU CORAÇÃO É DESSES QUE ANDAM NA CHUVA...

Eu sempre fui dessas pessoas do acaso, que recebem o frio repentino de regata e bermuda e que recebem a chuva sem ter nem mesmo um chapéu para se abrigar dos pingos. Já perdi as contas de quantas vezes cheguei encharcado em minha casa, inundando todo o caminho até um lugar onde pudesse alcançar uma toalha e um par de peças secas.
Todos os dias a acompanhava com meus olhos, para notar o que ela trazia consigo além do seu simpático sorriso. Sempre em sua bolsa de tecido havia um guarda-chuva dependurado. Estivesse o tempo chuvoso ou ensolarado, ele estaria lá. Sempre me chamou muita atenção, pois se passavam semanas sem chuva e ela seguia munida da proteção pluvial.
Pode ser que eu esteja imaginando, mas tenho uma vaga lembrança de ter pego alguma carona debaixo daquele guarda-chuva em algum final de tarde que o céu resolveu desaguar.
E em paralelo a esse hábito de sempre estar protegido da chuva, quer ela venha, quer não, penso em meu coração.
Penso que meu coração, talvez por ser parte de mim, seja simplesmente como eu. Desse tipo que anda ao acaso sem guarda-chuvas, sem documentos, de chinelo pelas poças.
E é claro, que a chuva chega para ele também, e se molha, e se encharca, e se empapa de água e sai navegando pelas vielas procurando uma boca-de-lobo para se perder de mim de vez. Mas eu o amarrei firme num cordel para que isso jamais acontecesse. Deixo ele ir com a força das águas, mas sempre puxo de volta quando o cordel me avisa que é hora de se preocupar.
Talvez hoje, um dia de chuva pesada, fosse o dia de aprender com a mocinha que sempre se vale de seu guarda-chuva, e arranjar uma proteção definitiva para a chuva que lava minha alma e o meu coração de pessoa que anda ao acaso de chinelo pelas poças.
Mas eu nunca aprendo...

Grito Número Cento e Trinta e Quatro:

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SONHOS DE QUASÍMODO

Funesto, bestificado
Carne crua, mal amado
Cigana nua, ele amordaçado
Estranho amor, estranho amor...

Triste, puro,
Deformado.
Bela e cruel,
Fazendo seu papel.
Quanta dor, quanta dor!

Pelas torres se esgueirando
As gárgulas se faziam irônicas
As carolas tão atônitas
A gritar, a gozar

Deixou o cancro tomar-lhe o corpo
Sua doença foi tomar a luz ofuscada pelos vitrais
O sineiro fez sua vez

Victor, o que você criou?
Com suas badaladas mortais,
Mais uma gárgula para as catedrais!
A sabatina começou!

Sabatina nas catedrais!
Serpentina nos carnavais!
E o pobre cheirando os restos mortais
Daquela que nunca o amou...

Sobrou martírio nas ossadas
A última tentativa do jamais-amado
Resquício das covas entrelaçadas
Dois esqueletos, um esguio e um deformado

O leito rochoso lhe deu a maldita paz!
Surdo, coxo, infeliz
É hora da última badalada

Grito Número Cento e Trinta e Três:

domingo, 2 de outubro de 2011


ZUMBI DO MIOCÁRDIO

Meu coração é um navio negreiro
Que parte da África central
Quantos homens fortes e inteiros!
Quanto trabalho veemente em potencial!

Mas é fato que o caminho é traiçoeiro e o mapa falha
E parte dos negros morre ou se mata ainda na nau
A doença se espalha, e com toda gentalha...
É um escravo somente que combate o mal

Entre adaga e chicote o escravo foge no trote
Matando o vil capitão do navio
E foge por mata adentro

Foi este guerreiro escuro que tornou em mim o coração duro
Sofrido peito imundo e vazio
Mas com semente de flores bonitas por dentro



Ilustração de Joey Hx Core, que pediu para participar de um grito mudo.

Grito Número Cento e Trinta e Dois:

terça-feira, 27 de setembro de 2011


TIGRES SEM DENTES NÃO ME BOTAM MAIS MEDO


Eu já fui um filhote de tigre.
E sempre que fui ronronando buscar o calor do colo tomava mordidas.
E fui perdendo parte dos pelos, ganhando cicatrizes.
Perdi a vista de um dos olhos, tomando patadas.
Acabei deixando de ser tigre, para ser algo mais manso e mais cruel ao mesmo tempo.
E eu nunca esqueci que sou tigre, mesmo devorando das flores e não dos cervos, mesmo não tendo me sobrado mais pelos de tigre, mesmo agora que minha vista de lince foi cegada com farpas.
Sou um tigre que dorme com os corvos que dizem "nunca mais", um tigre que se alimenta de flores do mal.
Um dia, mesmo cheio de cicatrizes e sabendo qual seria a reação, busquei o aconchego mais uma vez. O último suspiro da esperança tola e sonhadora.
E como se eu fosse uma presa, voou com seus dentes pontudos para cima de mim.
Sem pensar, instantaneamente, enfiei-lhe a pata na cara.
Caído ao chão, pisei na sua fuça meia dezena de vezes, até não sobrar nenhum dente em sua boca maldita e nervosa.
Depois desse dia, as mordidas deixaram de doer, e as farpas, como diriam meus amigos corvos, "nunca mais".




Grito Número Cento e Trinta e Um:

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

BELO CARRO ADORMECIDO (OU BRASÍLIA DE ABÓBORA)

Eu não sou um "poeta das ruas". Aliás, ser poeta nada vale para mim. O poeta transpira e constrói com o suor.
Eu apenas vomito e destruo com meu vômito avesso.
Estou escrevendo em um capô de carro abandonado.
Molhei meus fósforos de propósito na poça de chuva que tem no teto amassado.
Acabou para eles.
Talvez esteja tudo acabado para mim também.
Talvez eu esteja escrevendo baboseiras que não servem para nada.
Talvez meu coração seja como este velho carro enferrujado que me serve de escrivaninha.

- Pobre menino rico...

Fiz um desenho na poeira do para-brisa.
Um coração tosco que vai ficar marcado ali até a chuva levar e estragar tudo; que talvez já tenha sido fabricado com defeito.

E todos olham com nojo, com espanto.As vitrines refletem um crânio com roupas.
Como se no meio de uma feira de importados estivesse um carro podre como este, que ninguém quer.
Mas talvez a feira seja de carros populares, novos ou usados, mas sempre populares.
E pela poeira deste daqui, e ferrugem, e pneus murchos, deixou de ser popular há muito tempo.
Mas mesmo feioso e desajeitado, não deixou de ser um belo adormecido.

(...)

Foi no domingo que resolvi ligar para alguém e vomitar toda a angústia. A amiga que me atendeu não sabia que era eu.

Ela disse: "Aparece no visor: NÚMERO RESTRITO...". Isso aparece para todo mundo, não sei mudar essa configuração no telefone.Itálico
Talvez eu não saiba mudar isso em minha própria vida e eu seja restrito para todo mundo. Seja carne, osso, gordura e textos meus.
Li para ela o que tinha escrito até então de "Belo Carro Adormecido". Ela comentou:

- Parece um preâmbulo de algo maravilhoso que ainda não foi escrito.

"ABORTAR MISSÃO, A TURBINA FOI PREJUDICADA.
HOUSTON, WE HAVE A PROBLEM."

(...)

Voltei na segunda feira para olhar o automóvel adormecido, na esperança que me rendesse a tal "coisa maravilhosa" que faltava, porque, diabos, eu vivo disso e por causa isso.
No caminho vi alguns milicos marchando e cantando "Johnny Furacão" e imaginei James Dean atropelando todos eles. Sorri com o canto da boca.
Cheguei e os fósforos haviam sido soprados para fora da poça e estavam secos, provavelmente se acenderiam com a primeira ou segunda tentativa.
Talvez não esteja tudo tão perdido assim.


Cantarolei o verso de uma canção que
conheço bem: "não quero ver mais uma vez essa série em que a gente sangra tanto, meu bem..."
O coração desenhado na poeira estava lá, intacto. E estamos na "terra da garoa". Do lado, um jornal no limpador dizia: "O pesadelo começa na garagem."
Talvez haja esperança.
Talvez seja somente a garagem.
E quando eu beijar esta carcaça apodrecida com o tal do "amor mais puro que existe" e colocar as mãos no volante com paixão, como James Dean, esta abóbora fora do prazo de validade, este resto de feira que nenhum mendigo quis sorver, se transforme no maior possante da história e suma, voando a 300km/h no meio do cosmo, dançando com as estrelas.
E alguém (dos que olharam o crânio com roupas) vai dizer:

- Lá vai o melhor piloto do mundo, na maior máquina que o universo já viu...

Foi assim que eu decolei, em uma Brasilia 1600 feita de abóbora...