Grito Número Cento e Sessenta e Um:

quarta-feira, 21 de março de 2012

FULANINHO, EX-POETA

Fulano queria ser escritor, desde pequenino inventava suas histórias fantásticas.
Mas o destino o fez advogado, formado em direito em uma universidade tradicional com registro e uma carteirinha da ordem dos advogados com uma foto 3x4 muito bacana.
Frustrado, fazia suas petições ao juiz em forma de poemas e enfeitava as bordas com filigranas coloridos. O juiz, sisudo e sem qualquer sensibilidade artística, sempre indeferia o pedido.
E Fulano, sem clientes, parou de escrever e ficou muito rico. Muito mesmo!
E hoje, conta sua história de superação; a trajetória de menino pobre ao advogado sênior de multinacional. Colecionador de motocicletas Harley-Davidson, piadista de elevador e bebedor de bourbon americano.
Com todos seus ternos italianos e contas bancárias, usava a tal história de vencedor como um disfarce, pois sabia, que com tudo aquilo que tinha, era mais pobre que o menininho que fora um dia.
De alma enegrecida pelos procedimentos, pelas gravatas e pelos nós windsor-largo cotidianos, percebeu-se sufocado tantos e tantos anos depois.
Em um momento de sua vida, quando os primeiros fios brancos sobrepujaram suas madeixas, correu desesperado até seu escritório no último andar e pegou na terceira gaveta um bloco de papel e empunhando sua MontBlanc como se uma adaga fosse, tentou pensar em um verso, que não saiu.
Sua trajetória estava perpetuamente maculada. De menino pobre ao status de grande advogado, de advogado à condição de assassino: o garotinho que sonhava em ser escritor, fora brutalmente assassinado.

1 comentários:

Bruna Berri disse...

A falta daquilo que se perdeu sempre vem à tona em algum momento da vida, pena que vem apenas a saudade e não o objeto perdido.