Grito Número Cento e Trinta e Oito:

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SOBRE O RÍMEL VALER COMO MOLDURA

A conheci nos últimos meses. Sempre me destacou a maquiagem levemente borrada que cercavam seus cílios compridos. Acho que ela chorava escondido sempre. Já a vi chorando uma vez, era de cortar o coração. Aquela maquiagem borrada era como a moldura do lindo quadro que eram seus grandes olhos escuros.
Sempre me sorria um sorriso juvenil e simpático. Trocávamos pouco mais que cumprimentos formais.
Um dia fiz uma pequena caricatura no canto de minha caderneta e entreguei para ela.

- Sou eu? - ela me pergunta rindo.
- Sim. Os olhos não correspondem, parece que no desenho você está hipnotizando alguém. Mas no geral, está parecido. - respondi.
- Está muito legal. - disse sorrindo seu sincero sorriso espontâneo.

Outro dia, enquanto ela contava as cédulas de dinheiro, me mostrou que guardara o meu rabisco em sua carteira. Para mim, aquilo tinha mais valor do que se eu expusesse grandes telas nas pinacotecas mais badaladas de São Paulo.
Em um certo momento, estava assistindo a um documentário sobre imagens, cenários e composição cinematográfica e comecei a rabiscar um bloco de papel reciclado enquanto assistia. Eu estou sempre rabiscando alguma coisa. E percebi que o pedaço de semblante que eu havia desenhado, do lado de outros desenhos irrelevantes, era muito semelhante ao dela. Eram os olhos dela, os olhos que não estavam compatíveis com a caricatura de canto de caderno que eu havia feito.
E o que narrei agora não foi fruto de uma paixão pueril, de um amor de perdição ou de atração sexual por uma mulher, foi apenas uma epifania trazida à tona por um par de olhos escuros e brilhantes.
O que me rendeu observar esse par de olhos e desenhá-los depois foi descobrir que enquanto muitos pensam em mudar o mundo cortando cabeças de ditadores, jogando molotovs flamejantes nas embaixadas, fazendo poemas-protesto contra o parnasianismo ou votando nulo nas eleições presidenciais, esta mocinha mudava o mundo simplesmente passando sua vista por sobre as pessoas.

3 comentários:

Monique Burigo Marin disse...

Dan, que lindo texto!
Os olhos que rabisco são como fendas e não mudam nada.

Mariana Bisonti disse...

Nem precisei começar a ler o texto para reconhecer os olhos, ficou bem parecido e o texto muito bom..Vc deveria mandá-lo à ela (colocando crase já que não tenho desculpa para não saber)..Pode ser uma razão para ela não ter seu rímel borrado..ao menos por um dia.

Continue inspirado.!

mfc disse...

Que linda forma de veres os outros!!
Lindo post.