Grito Número Cento e Vinte e Cinco:

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

E NEM SOUBERAM DA OPÇÃO DE TER UM FINAL FELIZ...

Fui o primeiro a entrar no carro. Meu trajeto demorava pouco menos de hora e meia de ônibus. Enquanto as pessoas embarcavam do terminal para o comboio, reparava nos tipos que entravam: mulheres religiosas, malandros de bar, mães feias com crianças de colo igualmente feias, até mesmo um policial fardado com um bigode eriçado.
Quando entrou uma moça vistosa, de cabelos longos e dourados, vestindo preto (contrastando com sua pele branca) e portando um decote raso e modesto no busto. Sorri, não por sua beleza ou coisa que o valha, pois eu sorrio para as pessoas que olham para mim por mais de dois segundos. Normalmente quem é reparado ou flagrado reparando, devia o olhar. Pois eu gosto de sorrir, como se estivesse oferecendo algo de valor com meus dentes amarelos de café.
A mocinha se aconchegou no assento a minha frente. Na diagonal sentou um homem de vestes sujas e pele destruída e enrugada de sol, com olhos de cor de águas caribenhas, não se pode dizer se são azuis ou verdes.
O homem ficou fitando o decote da moça e mordia os lábios, virava o corpo e repetia a ação a cada par de minutos. Parecia fingir ser uma estrela do pornô prestes a entrar em cena. Foi aí que comecei a me incomodar com a ação reiterada do indivíduo. A pobre moça, violentada com aqueles olhos claros e febris não havia reparado no que estava acontecendo.
Eu penso que não há mal em reparar e desejar as belas mulheres da metrópole, mas que isso não passe de jogos de olhares respeitosos e desejos internos, sem que caiam na vulgaridade de animais no cio.

E o olhar febril seguia...

Pois quando resolvi me levantar e colocar-me em pé frente a garota, numa atitude heróia e quixotesca de proteger Dulcinéia alheia dos olhos insistentes, um homem gordo, que cantarolava uma música popular de gosto duvidoso, obstruiu a visão do observador maltrapilho e vulgar.
E foi neste dia que Sancho foi herói sem se dar conta. E é assim todos os dias, em São Paulo e Pequim, em Nova Iorque e Paris, em Dublin e Moscou, mulheres são salvas por seus heróis e ambos não percebem e acabam por nunca saber que o adequado é que vivam felizes para sempre.

3 comentários:

Mariana Bisonti disse...

Adoreeei.!

Realmente, ele podia estar só olhando, mas chega uma hora que incomoda, mesmo.

Você sendo um observador que reparou ou você sendo a própria moça. De qualquer forma, dá vontade de dar um basta na situação.

Alguns desses caras, com olhos de cor de águas caribenhas, ou não, olham muito furtivamente e é como se tivessem tirando pedaço, apesar do velho ditado que olhar não tira pedaço..Parece que não, mas figurativamente, tira sim.

Ahh..e adorei a referência àquela crônica "O Amor acaba" ..

Patrícia Lemmon disse...

Adorei!
Você conseguiu transformar um fato qualquer que passaria despercebido pelos olhos da maioria, até da moça violentada, em um texto que reflete a nossa vida diária.

Monique Burigo Marin disse...

Ainda me surpreendo por me surpreender tanto por aqui. Lindo!