Grito Número Cento e Doze:

sexta-feira, 12 de agosto de 2011


Era junho e um dia quente como um fiapo das chamas do inferno. Minha testa sustentava gotículas de suor indesejadas para quem apenas havia iniciado o dia.
Desembarcado na estação Paraíso do metrô paulistano, pegaria um ônibus que passa de hora em hora na Bernardino de Campos, com minha falta de sorte esperaria em torno de cinquenta minutos, de acordo com um ambulante.

-Passou "num faz nem dez minuto", xará!

Sob um sol castigador, me recolhi embaixo de uma árvore próxima ao ponto de ônibus e me pus a esperar impacientemente pelo bendito comboio. E o tempo não passava, diferente dos diversos ônibus com itinerários adversos do que eu aguardava, já sem nenhuma paciencia.
Uma brisa repentina refrescou a minha espera inquieta e dissipou a minha tensão causada pela hiperatividade e impaciência. Ficou resolvido que aquele seria um instante para descontração. Tomei aos dedos um cigarro que não pude acender. Estava sem isqueiro ou fósforos.
Tentei comprar qualquer poder de fogo com o ambulante, mas o tal não tinha nada além de amendoins e garrafas d'água à venda.
Foi quando apareceu uma mulher de cabelos curtos e boina negra, de coxas grossas e desnudas como as de um zebrino, lábios grossos e irreverentes, quadris largos e uma barriga completamente fora dos padrões hodiernos de beleza, tinha um pequeno ar pueril em sua postura.
Ela se parecia com um nu de Modigliani que nunca recordo o nome, mas que guardo as cores na memória. Simpatizante da minha tentativa que acender o tabaco entre os dentes, me ofereceu seu isqueiro. Gostaria de dizer que sua voz era doce, bela ou coisa que o valha, mas a verdade é que não me lembro mais.

- Aqui está. Pior ter cigarros e não ter como acender do que ter o isqueiro e não ter os cigarros.

Respondi apenas sorrindo um dos sorrisos mais francos que dei em toda minha vida. Seu rosto era lindo confrontando os raios do sol, cerrava os olhos para me enxergar, também abaixava um pouco a cabeça, pois era uns dois palmos mais alta que eu.
Nos fitamos por meio segundo, que acabou por parecer quinze minutos, ela soltou a fumaça de seu cigarro e disse.

- Me chamo Sofia.

Pensei em mil coisas bonitas para dizer acerca de seu nome. Que significava sabedoria, pensei em brincadeiras para fazer relacionadas à obra "O Mundo de Sofia", mas fui interrompido com seu olhar penetrante.
Ela me fitou com um olhar inesplicavelmente cativante e sensual, livre de qualquer vulgaridade. Eu senti vontade de beijá-la, de rasgar suas roupas e possuí-la no ponto de ônibus e depois a pediria em casamento e criaria nossos filhos e cães, poderia ser ali mesmo, na Bernardino de Campos.
O cigarro havia queimado apenas umas poucas tragadas quando o meu ônibus chegou. E fui estúpido o suficiente para subir nele. Sofia me olhou sorrindo através da janela com uma expressão de "c'est la vie". Sua silhueta foi ficando pequena enquanto o ônibus se afastava de sua figura.
E amei esta mulher, que nunca soube meu nome, por todos os dias até seu semblante se dissipar de minhas memórias como a fumaça de nossos cigarros. Uma das mulheres mais importantes de minha vida foi uma tal Sofia, que está pelas ruas de São Paulo, acendendo cigarros e nem sabe o nome, ou mesmo da importância na vida deste velho.

4 comentários:

Iza disse...

nossa...adorei...mto bom
me senti la no ponto de onibus tb...vendo e ouvindo a cena

Bruh disse...

Hehehe...muito bom o texto, senti vontade de conhecer Sofia também. Um belo pedaço de memória muito bem ilustrado. Gostei mesmo, e gostei do exercício de escrever sobre um momento do passado... genial!

Mariana Bisonti disse...

Gostei muiiito.!
Parece maluquice sua, mas todo mundo faz isso e acha que é o único..Isso de casar e ter filhos em menos de 2 minutos com uma pessoa que na maioria das vezes nem falou com você e que você nunca mais vai ver..

Monique Burigo Marin disse...

Eu adoro esse nome!
O texto me fez lembrar de uma música que adoro de uma banda que amo muito. "Eu sempre amo alguém que nem conheço assim tão bem e nem convém conhecer alguém até o final" Exemplar do Fundo do Poço - Violins.

Acho que encontrei Sofia, ontem mesmo, enquanto esperava o ônibus e a chuva atravessava as goteiras do ponto de ônibus. Ela apenas sorriu.