Grito Número Cento e Dezesseis:

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

SOBRE UMA RARIDADE QUE ENCONTREI NA FEIRA DO BIXIGA


As batidas eram os suaves e velozes acordes dos chorinhos paulistanos de domingo de manhã. Meu suor cheirava a café. O sol não castigava minha pele, mas também não era ameno.
Comia um pastel de palmito no Bixiga, próximo a uma conhecida cantina italiana que existe por ali e olhava livros velhos, móveis velhos, brinquedos e pessoas velhas. Senti vontade de comprar alguns cachimbos antigos, ainda que achasse difícil fumar neles, prefiro cigarros, cigarrilhas e charutos, que são fáceis de controlar o começo e o fim do tabaco.
E quando selecionava alguns exemplares da histórica e legendária "O Tico Tico", encontrei meu coração à venda, todo empoeirado e pisoteado por bisontes, como se o tivesse guardado no meio de uma rua de Pamplona em pleno Festival de São Firmino.
Mas o mais triste de tudo isso, que mesmo o olhando com todo carinho e saudade, ele custava caro demais, muito mais do que os tostões que tinha em meus bolsos.

5 comentários:

Brunah disse...

Bom texto, coeso, bem tecido contudo de metáfora hermética. Vc precisa ser mais acessível, escrevemos num país de analfabetos.
Pastel do Bixiga, nunca comi, só senti seus cheiros. na minha próxima visita à tua querência, não me escapam!

Dan Arsky Lombardi disse...

Entendo sua posição e concordo. O texto quando é enriquecido com metáforas e comparações rebruscadas e complexas, se fecha para uma minoria. Mas se eu escrevesse para os analfabetos, as páginas em branco já teriam me feito gênio.
O que quero dizer é que não vou empobrecer o texto, a não ser que eu esteja sendo prolixo demais para algo que ficaria muito melhor se fosse feito de modo simples.
Se Picasso tivesse pensado em ceder às artes curvilíneas e esquecesse para sempre os seus quadrados, ele seria um reles espanhol com um pincel.
Você, Bruna, entendeu e isso já me basta. Se outros poucos irão entender, fico mais feliz ainda.

Youko Natas disse...

Dos pastéis nem o cheiro senti, o gosto tampouco.
Já meu coração, já cansei de recuperar aqui e ali. Nunca em feiras ou antiquários. Sempre em bares e bocas de lobo. Abandonado por aquelas que outrora o prometia mas que nunca o valorizavam, nem ao ponto de coloca-lo a venda.
Afinal, as pessoas não se interessam pela história se a capa está apagada e cheia de remendos.
Devia tê-lo roubado, menino! Um item de tal tamanho não há vintém que o assegure.

Jorge disse...

Bom texto Daniel, abraços desde Pelotas.

Monique Burigo Marin disse...

Imaginei Magritte retratando um coração corroído, no qual escreveria logo abaixo: "isso não é um coração".
Coração que não é coração, até pode ser comprado, mas jamais pulsará.

Escrever, para mim, é libertar-se. Espero que não mude sua estilística.