Grito Número Cento e Seis:

terça-feira, 12 de julho de 2011

A HISTÓRIA DA BRASA QUE DESEJOU QUEIMAR PARA SEMPRE

Quando parecia haver somente um resto de borralho e cinzas frias, uma brasa que o inverno tempestuoso insistia em fazer morrer voltou a ser chama. Uma pequena brisa desabrochou a rosa em botão feita de chamas alaranjadas.
Começou então a queimar o resto do que um dia foi um chamiço e com força bruta transformou toda acendalha, em poucos segundos, numa poeira grisalha e morna.
Alimentada, a pelotinha quente tornou-se um brasido e despertou para uma era de fogo que deixaria Hades a ser comparado com um palito de fósforo, que não queima mais que a ponta de uma cigarrilha.
E seguiu queimando, derretendo o braseiro, queimando os tapetes e fazendo a casa ruir em fagulhas. Queimou a vila e depois o distrito todo. Queimou todas as cidades da região. Consumiu como um fiapo de palha todo aquele país, que nada mais era naquele momento que uma Pompéia violentada pelo Vesúvio .
"Que Não Seja Imortal Posto que é Chama" era agora um verso a ser esquecido, pois ironicamente a labareda já havia queimado todos os livros e todos os corpos de autores do mundo.
E depois de tanto queimar aquele planetinha pequeno, se tornou um grande sol, que iluminou seu rosto bonito em uma manhã de domingo, lhe fazendo sonhar acordada.

2 comentários:

Anônimo disse...

Algumas vezes, é preciso incendiar os restos para brilhar novamente...como nunca!
Que suas chamas iluminem ou queimem tudo o que cruzar seu caminho daqui por diante. Que sua chama nunca mais se apague ou esconda por detrás do conforto do já conquistado.
Belo texto, sempre bom, sempre Dan!

Patrícia Lemmon disse...

Uau... adorei o texto! Poderia ser a história do sol